O programa da FM Educativa 104.7 de Mato Grosso do Sul,“O Assunto é Cinema” desta semana fala sobre o longa-metragem conta a história de Bruce Springsteen. Produzido e apresentado pelos jornalistas Clayton Salles e Daniel Rockenbach, o quadro vai ao ar todas as quintas, às 20h (horário de MS), pela rádio Educativa 104.7 FM.
NOTA E CRÍTICA – Clayton Sales
O ASSUNTO É CINEMA O longa-metragem conta a história de Bruce Springsteen com foco entre o fim dos anos 1970 e início dos anos 1980. Nesse período, o astro do rock estava no processo de criação do álbum “Nebraska”. Considerado um dos trabalhos mais reflexivos e pessoais do artista, sua concepção ficou marcada por pressões da indústria da música e de feridas de seu passado familiar.
Escrito e dirigido por Scott Cooper, o filme acerta numa premissa estrutural que se revela cada vez mais segura: uma biografia cinematográfica baseada em um recorte bem específico da vida do personagem. Não é raro uma obra que resolve transitar por toda a vida do biografado descambar para abordagens superficiais. Por isso, a opção pelo foco permite verticalizar fatos e organizá-los com profundidade, algo que o longa, no geral, consegue com êxito. Dentro dessa premissa estrutural, outro acerto é o teor do eixo temático escolhido. Em vez de centrar na produção musical e no processo de elaboração do “Nebraska”, o alicerce foi a depressão que acometia o cantor.
Do início ao fim, Bruce expressa um crescente desconforto que se conecta à relação problemática com o pai. A partir daí, a depressão permeia seu romance com Faye, uma espécie de síntese das mulheres com quem o artista se relacionou, a maneira como observava o mundo e o trabalho como músico. É como uma sombra que não o abandonava e que assumia o controle sobre sua vida pessoal.
Mencionar a depressão como alicerce estrutural do filme nos leva à atuação de Jeremy Allen White. Considerando a premissa básica do roteiro e as escolhas da direção, o trabalho do ator não exigia apenas a verossimilhança com a aspectos importantes da figura pública de Bruce Springsteen. Era necessário penetrar em abismos profundos e perigosos da sua mente.
Com a ajuda do próprio Bruce, que acompanhou as filmagens, Jeremy Allen White entrega uma belíssima performance, com densas camadas que mesclam o artista imponente, não à toa conhecido como The Boss, e o homem fragilizado por um coquetel de dor, fuga e uma crescente bomba-relógio que era seu coração devastado pelo passado. Bomba que explode na comovente cena final. Merece destaque também a atuação brilhante de Stephen Graham no papel de Douglas Springsteen, o pai de Bruce e catalisador dos processos que levaram o cantor ao quadro depressivo que o acometia.
Tecnicamente, o filme é corretamente conduzido pela premissa estrutural de focar na depressão de Bruce. Quase todos os cenários tem cores frias, salientando a melancolia daquele momento do artista. Especialmente, a casa onde ele compôs as músicas do “Nebraska”, escura, solitária e soturna. Mesmo nos momentos mais vibrantes, por exemplo, quando Bruce tocava numa casa de shows, havia um fundo escuro atrás da banda.
O filme também apela a clichês de cinebiografias, mas nesse caso, há uma razoável justificativa. Como o cerne era a depressão do artista, a intenção pareceu tornar a história mais assimilável ao público. Então, lançar mão desses clichês parece ter sido o artifício para não deixar a obra cair no desalento exagerado. Deu certo no geral, com uma perda de prumo aqui e ali. O som também merece menção. É louvável que um filme sobre músico valorize tanto o silêncio e a economia sonora. Por isso, as trilhas originais de Jeremiah Fraites são concisas o suficiente para apenas permear instantes dramáticos pontuais. Os silêncios acabam dizendo muito sobre a mente do astro.
“Springsteen – Salve-me do Desconhecido” é um bom filme, com roteiro que começa inconsistente, mas que se ajusta depois, e uma direção que escolheu caminhos seguros, além das grandes atuações do elenco. Partindo de uma premissa corajosa, o desenvolvimento é respeitoso e proveitoso. Ele não deixa somente o relato de um astro do rock muito talentoso. Isso o mundo sabe há décadas.
O filme mostra, entre outras coisas, que ninguém está livre de abalos na saúde mental. Nem mesmo o genial Bruce Springsteen. E que melhor que fugir, como ele tanto fez naquele momento da vida, é enfrentar com uma boa rede de apoio, familiar ou profissional. No fim, acaba sendo um alerta. Se as músicas de Bruce Springsteen sempre nos acrescentam algo, sua cinebiografia aponta caminhos que podem ser cruciais em situações que podem ocorrer com qualquer um de nós.
Assista o trailer:
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