O Assunto é Cinema é um podcast produzido e apresentado pelos jornalistas Clayton Salles e Daniel Rockenbach. O programa fica disponível todas as quintas, às 20h (horário de MS), no Spotify da Educativa MS.
NOTA E CRÍTICA – Daniel Rockenbach
O Assunto é Cinema analisa “Foi apenas um acidente”, filme dirigido e escrito por Jafar Panahi. A trama conta a história de um inusitado grupo de pessoas que encontra por acaso um homem que eles desconfiam ser aquele que os torturou por protestarem contra o governo. A dúvida em torno da confirmação da identidade do torturador faz com que o grupo tenha que resolver suas diferenças antes de decidir o que fazer com o suspeito e seguir com suas vidas.
O longa abre com uma família em um carro: um homem, sua esposa grávida e uma criança no banco de trás. Depois de um baque, o pai para o veículo e se dá conta que atropelou um cachorro. Pouco depois, o acidente provoca algo que faz com que o carro pare de funcionar e isso faz com que o condutor peça ajuda a um rapaz que estava por perto. O jovem o leva a um prédio onde trabalha Vahid, um motorista de van que começa a questionar a identidade do homem depois de ouvir sua voz e ver a forma com que ele anda. A desconfiança de Vahid constrói o suspense em torno deste sujeito ser ou não seu torturador no passado.
A sede de vingança de Vahid faz com que ele sequestre o misterioso homem, desencadeando a trama do roteiro escrito pelo diretor, Jafar Panahi, juntamente com Mehdi Mahmoudian, Nader Saïvar e Shadmehr Rastin. A narrativa se desenvolve em torno da dúvida em torno da confirmação da identidade do torturador, o que faz com que Vahid reúna outras vítimas. A grande questão está em torno do que o grupo de pessoas fará com aquele que pode ou não ser o homem que os torturou no passado. É justo matar o suspeito, um pai de família que está prestes a trazer outra criança para o mundo, sem ter certeza absoluta de sua identidade?
Filmado às escondidas no Irã com um Iphone e uma câmera digital, “Foi apenas um acidente” marca o retorno de Jafar Panahi aos cinemas depois do tempo que ficou preso por protestar contra o governo iraniano. O diretor e os atores filmaram as cenas em ambientes urbanos cientes do risco que corriam de serem interpelados pelo governo, algo que torna o projeto ainda mais pertinente e arriscado. O cinema de guerrilha de Panahi assume um posicionamento político ousado e isso reflete na atuação e na composição de todas as cenas.
Ainda que seja um suspense que mantém a tensão constante, o humor em torno do ridículo da situação do grupo é um dos pontos altos da narrativa. Os conflitos entre os personagens alternam momentos de aflição com a mais pura ironia em torno da desumanização dos protagonistas. Um exemplo do humor involuntário é quando Vahid manifesta sua dor nas costas, provavelmente oriunda dos tempos na mão de seu torturador. Se é isso, uma pedra nos rins, ou ambos, é inegável que os maneirismos empregados pelo ator Vahid Mobasseri provocam o riso, ainda que com um certo desconforto.
No elenco ainda se destacam Mariam Afshari como a fotógrafa Shiva e Mohamad Ali Elyasmehr como o amargurado Hamid. As discussões entre eles e Vahid exploram a fundo a desumanização das vítimas da tortura, algo que o filme trabalha excepcionalmente bem. Imaginar o quanto do roteiro foi vivido por todos que participaram na composição da trama é algo no mínimo perturbador já que o texto se baseia nas experiências do próprio Panahi no período em que esteve preso pelo regime iraniano até ser liberado em 2023.
A tensão do desfecho da trama é algo que tende a ficar martelando na cabeça do espectador por muito tempo, mérito das habilidades narrativas do diretor. Uma coisa é discutir um filme político e seu valor enquanto posicionamento ideológico, outra é debater a qualidade narrativa de uma obra em construir tensão, ironia e reflexão. Panahi e sua equipe de atores e técnicos consegue realizar ambos os aspetos com maestria.
“Foi apenas um acidente” acabou representando a França na temporada de premiações internacionais já que o filme obviamente não poderia ser lançado no Irã. A ousadia de Panahi e seus companheiros em contar uma história tensa a partir de diálogos excepcionalmente naturais e espontâneos, filmados em um clima de tensão constante é uma realização e tanto. “Foi apenas um acidente” está disponível no serviço de streaming Mubi.
Nota 10.
Confira o trailer do filme “Foi apenas um acidente”:
Ouça o episódio analisando “Foi apenas um acidente”, entre outras atrações, direto do Spotify da Educativa MS:
Foto: Divulgação.
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