O Assunto é Cinema é um podcast produzido e apresentado pelos jornalistas Clayton Salles e Daniel Rockenbach. O programa fica disponível todas as quintas, às 20h (horário de MS), no Spotify da Educativa MS.
NOTA E CRÍTICA – Daniel Rockenbach
O Assunto é Cinema analisa “007: First Light”, jogo desenvolvido e publicado pela IO Interactive. A trama acompanha um jovem James Bond como observador em uma missão de resgate na Islândia. Quando o helicóptero onde ele e a equipe de assalto estão partindo para a operação é abatido, Bond tem que confiar em seus instintos para sobreviver e conseguir cumprir a missão que revela ser uma operação secreta do MI6, a inteligência britânica.
O jogador assume o controle logo no prólogo, com a apresentação assumindo a função de um tutorial. Na medida em que Bond avança por entre os escombros e o acampamento inimigo, uma voz feminina assume o rádio informando que o MI6 está tomando para si o controle da operação, passando um mínimo de instruções para que Bond saia vivo dali. Quando orientado a largar os reféns para trás, Bond decide ignorar as ordens e parte para cumprir a missão de resgate.
A atitude impetuosa de Bond salva o dia, contra todas as projeções do MI6 e isso chama a atenção de M, a responsável pela agência. Ela recruta o jovem para o novo programa 00 e assim começa a trama de “007: First Light”, jogo que conta como James Bond veio se tornar o grande agente secreto que marcou a história do cinema e da cultura pop. A produção da IO Interactive foi anunciada em 2020 marcando o fim do hiato de oito anos depois que a Activision perdeu os direitos da franquia com o fracasso de “007 Legends”, fechando um longo ciclo de jogos medianos.
Desenvolver uma experiência interativa que atendesse as expectativas de público e crítica foi a tarefa mais difícil para a desenvolvedora Dinamarquesa que tinha como maior experiência os jogos da série “Hitman”. A franquia de ação furtiva tinha pouco a ver com os jogos anteriores de 007, algo que deixou os fãs preocupados em um primeiro momento. O fantasma da adaptação de “007 Contra Goldeneye”, o grande sucesso não apenas da franquia como também da história dos jogos de tiro em primeira pessoa assolou os desenvolvedores da IO Interactive que sabiam que tinham que entregar algo novo e diferente de “Hitman” ou “Kane & Lynch”.
O resultado compensou a longa espera com uma das melhores experiências na adaptação de uma franquia e isso sem levar em consideração apenas o personagem nos cinemas, mas também onde tudo começou: nos romances de Ian Fleming. A referência mais escancarada aos livros está no próprio Bond, na cicatriz em seu rosto, detalhe que os filmes evitaram incorporar. Outros elementos literários do personagem aparecem ao longo da trama, especialmente no mundo do jogo, entre eles o baralho dos jogos de carta que Bond jogava com a mãe, apenas para citar um exemplo discreto. Esse tipo de capricho do roteiro de Martin Emborg e Michael Vogt agrada os fãs mais exigentes da franquia e mostra o respeito dos produtores com o personagem.
No quesito da experiência, vários trechos do jogo se destacam pela forma com que o diretor Hakan Abrak desenvolve a ação e o gameplay. “007: First Light” traz uma das melhores montagens de passagem de tempo já vistas nos jogos, aliando o clichê narrativo do cinema com a jogabilidade de forma simples e direta, tornando a fase do treinamento em Malta um dos estágios mais interessantes. A mistura de mecânicas de jogos de tiro com furtividade, estratégia e combate corporal tornam o jogo uma experiência que mistura os melhores elementos de jogos como “Uncharted”, “Hitman” e até mesmo “Batman: Arkham Asylum”. Acessórios como a lente e o relógio de Q encorajam o jogador a explorar as muitas formas criativas de se encarar cada cenário.
O jogo poderia passar a impressão de ser uma espécie de “007 Begins”, se levando muito a sério, mas logo que a trama se desenvolve, cenas como a em que Bond precisa pegar um paraquedas em pleno ar depois de pular de um avião provocam o jogador a encarar tudo como uma grande aventura. Incluir momentos em que qualquer “tio” soltaria um “isso é muito mentirada” como na cena em que Roger Moore faz o mesmo ao roubar um paraquedas em “007 Contra o Foguete da Morte” torna o jogo uma experiência que vai além de ser uma história que se leva a sério demais, algo que os filmes com Daniel Craig deixaram de lado quase que totalmente. 007 sem “mentirada” não tem a menor graça e os produtores levaram isso em consideração.
No elenco, o irlandês Patrick Gibson apresenta um Bond que não faz ideia de seu lugar no mundo, sempre questionando ordens e enfrentando seus superiores. A naturalidade com que o ator representa Bond conquistando todos com seu carisma, até mesmo os rivais mais estoicos, deixa a impressão de que ele poderia muito bem ser um forte candidato ao papel nos cinemas. O elenco de apoio reforça a diversidade que a franquia assumiu desde os anos noventa e intensifica adotando uma M com origem indiana, interpretada por Priyanga Burford. Outro que se destaca é Lennie James como John Greenway, mentor de Bond e personagem que divide as melhores cenas com o protagonista, a destacar o momento “Butch Cassidy e Sundance Kid” na Mauritânia.
“007: First Light” marca o retorno de David Arnold na trilha sonora e ainda conta com Lana Del Rey na interpretação da canção título do jogo em uma sequência de créditos de abertura que tem tudo a ver com os filmes. Finalizada a campanha principal, o jogador ainda pode encarar os desafios do “TacSim”, um simulador de missões do MI6 que ganhará atualizações periódicas da IO com novas missões e ítens nos próximos meses. A tendência é que o suporte ao jogo siga oferecendo conteúdo até o eventual lançamento de uma inevitável sequência.
A grande provocação que “007: First Light” deixa no ar é o que a Amazon Studios fará com o personagem nos cinemas. Dennis Villeneuve ainda não se liberou de “Duna” para levar adiante o processo de seleção do novo ator e a primeira versão do roteiro de Steven Knight sequer chegou a ser entregue. Dependendo do sucesso do novo jogo, é provável que os produtores passem a considerar com mais atenção a possibilidade de uma história de origem, agora com um ator mais novo, sem deixar de levar em consideração todos os elementos que tornaram a franquia uma das mais longevas da história do cinema.
“007 First Light” está disponível para PCs, Playstation 5, XBOX Series S e X e, em breve, para Nintendo Switch 2.
Nota 10.
Confira o trailer do jogo “007: First Light”:
Ouça o episódio analisando o jogo “007: First Light”, entre outras atrações, direto do Spotify da Educativa MS:
Foto: Divulgação.
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