O Assunto é Cinema é um podcast produzido e apresentado pelos jornalistas Clayton Salles e Daniel Rockenbach. O programa fica disponível todas as quintas, às 20h (horário de MS), no Spotify da Educativa MS.
NOTA E CRÍTICA – Clayton Sales
Quanto poderia valer o sonho americano nas décadas de 1950 e 1960 para uma jovem mulher do interior dos EUA que se lança numa Nova York que exalava charme, mas que escondia solidão? Para ela, a felicidade era um café da manhã admirando a vitrine da joalheria Tiffany’s. Era o gatilho que Holly acionava em sua saga por ascensão social. Mas a que custo? Porque havia um custo, mesmo com o esforço hedonista em mascará-lo com certa dose de desalento. Ou tudo era uma fuga? Essa história travestida de comédia é contada em “Bonequinha de Luxo”, lançado em 1961. Ele narra a jornada de Holly Golightly, acompanhante que mora em um pequeno apartamento, de personalidade aparentemente ingênua e frívola, mas que camufla mistérios. Ao conhecer o escritor Paul Varjak, que se muda para o mesmo prédio, sua vida oscila entre o apego crescente ao novo vizinho e a meta de alcançar o tal sonho como escape de algum passado.
O roteiro foi escrito por George Axelrod, baseado no romance homônimo de Truman Capote, e a direção foi de Blake Edwards. É possível enxergar resquícios da construção literária original em discretos cacoetes da Holly do filme. A garota sulista perdida na megalópole soa como metáfora da solidão na saga por riqueza. Quando quem a procura é uma mulher, as coisas tomam rumos ainda mais insólitos em função da cultura patriarcal que ainda impera na sociedade estadunidense. Portanto, Holly Golightly é alegoria do abandono envernizado pelo simulacro da determinação liberal, pelo menos, na obra de Capote. Já o longa-metragem de Blake Edwards, atenua bastante essa perspectiva sobre a personagem, porém, sem largá-la totalmente. A Holly do filme parece não sentir a desolação de quem acredita puerilmente na cantilena do sonho americano e é transformada em mulher sob desesperada felicidade. O verdadeiro motivo de tudo isso, no entanto, é revelado em uma bela reviravolta elaborada pelo roteiro sagaz e a direção arguta.
Há camadas densas sob a futilidade aparente de Holly. Embora sejam amortecidas com os recursos da comédia romântica, um rumo discutível, quando as descobrimos, percebemos o quanto a vida dessa mulher carrega chagas que denunciam os EUA do final dos anos 1950. Holly era órfã e viveu fugindo de lares temporários com o irmão Fred até se ver obrigada a se casar aos 14 anos com um veterinário viúvo que se sentia “dono” dela. Já adulta, ela decidiu fugir para lutar pela utopia liberal de enriquecer na cidade grande. Para se manter, Holly dorme ou faz companhia a homens mais velhos, inclusive o chefão da máfia de drogas Sally Tomato, que recebe visitas da jovem na cadeia e lhe passa suspeitas mensagens em forma de previsão do tempo. Então, a rotina despretensiosa e frívola é, na verdade, armadura para protegê-la da realidade. Esse contexto desenvolvido com perspicácia no livro causa um desconforto ambíguo porque a tragédia de Holly é trabalhada com leveza assustadora. Já o filme quebra o equilíbrio harmonioso do romance, transformando a personagem em uma mulher fútil que tenta se enquadrar nos padrões de elegância novaiorquinos. Perde-se muito da nuvem que paira sobre Holly. Mesmo que Axelrod tenha admitido que tirou a carga de Holly e Paul para adequá-los às expectativas do público conservador dos EUA, o resultado é um filme inofensivo sob o prisma das intenções de Truman Capote.
Então, por que “Bonequinha de Luxo” se tornou um clássico do cinema? Por vários méritos, como a fotografia bem organizada que salienta a relação de Holly com a Nova York de seus sonhos, apelando a cores acentuadas em consonância com cenários urbanos naturais. Há também a charmosa trilha sonora de Henry Mancini que usa o jazz como signo da sofisticação almejada por Holly. O principal, contudo, é a atuação de Audrey Hepburn. Apesar de ter a densidade aliviada em relação ao livro de Truman Capote, sua Holly é encantadora porque a atriz emana um carisma contagiante. Se a protagonista do filme não carrega alguns fardos da obra literária original, a suavidade que imprime funciona como coerente escapismo. Aliás, em grande parte pela sua performance, é possível enxergar um pouco mais as penúrias dessa personagem que diz tanto sobre uma época, um lugar e uma sociedade.
Mesmo com as atenuações questionáveis em relação à fascinante personagem do livro de Truman Capote, “Bonequinha de Luxo” é um ótimo filme. Ele semeia revelações sobre a condição da mulher dos EUA pós-guerra, um país que, enquanto se digladiava com a URSS na Guerra Fria, tentava projetar uma imagem idílica ao mundo. Porém, a história da jovem e complexa mulher branca do sul caipira que sofre a perda precoce dos pais, se vê compelida a um casamento moralmente repugnante e tenta se desacorrentar das amarras recorrendo ao uso sagaz da cultura patriarcal a seu favor para a sobrevivência aponta para um país refém de seus dogmas arcaicos. Há questões problemáticas , como ligeiros arroubos de racismo e sexismo, algo pode ser atribuído tanto ao espírito do tempo quanto aos ditames morais que moldavam uma parcela influente do mercado cinematográfico do período. Porém, o filme pode ser analisado além dessas máculas porque existem também elementos reveladores.
Holly Golighly é, na verdade, o codinome que se impôs para apagar o passado traumático simbolizado pelo nome de batismo Lula Mae Barnes. Um nome de guerra, no sentido de que sua vida, de forma sutilmente cáustica no livro de Truman Capote, e de forma romantizada no filme, sempre foi uma luta por sobrevida disfarçada da fantasia falaciosa do sonho americano. Para uma mulher atirada na selva de Nova York, a luta é ainda mais árdua. Porém, mesmo que Holly Golighly seja um ícone fashion, a essência de Audrey Hepburn reside na simplicidade com que anda pelo apartamento, no linguajar sarcástico com que briga com o caricato vizinho Yunioshi, na relação sincera com o amor platônico Paul Varjak, narrador do livro transformado em personagem no filme, e na fofura com que cuida de seu gato sem nome. De certa forma, a “bonequinha de luxo” representa a visão de um país sobre suas mulheres e pulverização requintada da ilusão da metrópole como espaço de progresso e emancipação.
Nota: 9,0.
Confira o trailer de “Bonequinha de Luxo”:
Ouça o episódio revisitando “Bonequinha de Luxo”, entre outras atrações, no Spotify da Educativa MS:
Foto em destaque: Divulgação.
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