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O Assunto é Cinema – Analisando o jogo Marathon

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O Assunto é Cinema é um podcast produzido e apresentado pelos jornalistas Clayton Salles e Daniel Rockenbach. O programa fica disponível todas as quintas, às 20h (horário de MS), no Spotify da Educativa MS.

NOTA E CRÍTICA – Daniel Rockenbach

O Assunto é Cinema analisa “Marathon”, jogo online de tiro de extração com jogadores contra o ambiente e outros jogadores. Marathon é o nome de uma nave construída na órbita de Marte para a colonização de Tau Ceti IV, um planeta repleto de recursos, muito parecido com a Terra. Por volta de 2794, a expedição chega ao destino e começa a colônia, mas as coisas não saem como o esperado e a Terra perde o contato com o controle da missão.

“Marathon” é uma sequência que funciona como reimaginação da trilogia clássica, lançada nos anos noventa. Nos originais, o jogador fica sabendo que a civilização alienígena Pfhor é a grande responsável pelo desaparecimento dos colonos. A Marathon era comandada por três inteligências artificiais, mas apenas uma está operacional: Leela. Ela orienta o jogador pelos corredores da nave até ambos descobrirem que Durandal, outra das IAs da nave, interagiu com os alienígenas e passou a ter uma agenda própria. A nova entrada coloca o jogador como um runner explorando o que restou da colônia, cem anos após os acontecimentos da trilogia original.

Poucos estúdios sabem desenvolver jogos multiplayer como a Bungie, principalmente se for de tiro em primeira pessoa. A experiência vem de sucessos como “Halo” e “Destiny” e tudo começou com “Marathon” em 1994, na época, exclusivamente para o Apple Macintosh com eventuais conversões para Windows. O conceito da sequência aproveita a trama da trilogia original e avança no desenvolvimento do universo do jogo a partir do mistério em torno do que a Terra faria depois da falha no contato com a colônia, uma decisão narrativamente interessante.

O jogador assume o papel de uma casca cibernética chamada runner, um receptáculo da consciência digitalizada de uma pessoa que assume o controle desse corpo artificial. Isso faz todo sentido em um conceito cuja jogabilidade implica em matar e morrer em várias partidas, repetidas vezes. A consciência digital é o jogador que cumpre contratos com as seis corporações que financiaram a nova empreitada. Elas querem recuperar o investimento na colônia e, ao que tudo indica, sabem que existe algo mais no planeta. As corporações e o jogador visam lucro, afinal.

Cada runner se materializa no planeta sozinho ou em grupo com outros três jogadores online. A cada partida, cabe ao jogador cumprir seu contrato ou recuperar o maior número de ítens possível. Se morrer durante a missão, o runner perde todos os ítens e ganha apenas a experiência mínima, caso o contrato não tenha sido cumprido por ele ou os companheiros. É uma mecânica de jogo que faz todo o sentido com a trama, tornando a necessidade de sobrevivência e extração do mapa ainda mais urgente. Na pior das hipóteses, morrer, só depois de cumprir ao menos o contrato. O ideal é eliminar os runners adversários, recuperar ítens e cumprir as metas.

Os mapas ainda estão restritos ao perímetro da colônia, ao pântano onde ficam os centros de pesquisa e às plataformas da base de operações. Na medida em que o jogador atinge o nível 25, um mapa no arquivo digital da Marathon fica disponível temporariamente, onde uma grande surpresa aguarda os fãs mais antigos da franquia. A expectativa é que nos próximos meses, mais eventos como esse e mapas estejam disponíveis, ampliando o escopo da trama e as opções de jogabilidade, isso sem esquecer os ítens cosméticos de sempre.

A estética de “Marathon” é descartável, tudo parece artificial e substituível, ainda que os cenários e as cascas dos runners sejam repletas de cores e símbolos. A arte de Joseph Cross e os designs de Lars Bakken e Andrew Witts dialogam naturalmente com esse futuro corporativo proposto pelo jogo, se valendo da estética para criar uma narrativa próxima ao estilo New Weird dos romances de Jeff VanderMeer ou China Miéville. Os jogadores mais interessados ficam sabendo o que aconteceu pelas mensagens nos monitores, pelos grafites nas paredes da colônia, nada está ali fora de contexto e esse clima de mistério torna tudo mais interessante. A trilha de Ryan Lott complementa a ambientação, compondo a atmosfera de estranheza de tudo.

Ao longo das primeiras 20h de jogo, fica a impressão de que o mundo de “Marathon” pertence às corporações, algo que os trailers exploraram à exaustão na campanha de marketing. O jogador segue compelido a insistir mesmo depois de morrer repetidas vezes, tudo para matar ou morrer pelos recursos e pelos contratos corporativos. É curioso notar como os jogadores assumem o papel dos runners cibernéticos, se desumanizando a cada partida, deixando de colaborar uns com os outros e assumindo uma postura quase sempre hostil, algo que não costuma acontecer em jogos com mecânicas similares como “Arc Raiders”. É a expressão máxima do capitalismo e, mesmo assim, entrega uma jogabilidade viciante e que recompensa o jogador mais dedicado.

O sucesso de “Marathon” será determinado nas próximas semanas, pelo número de jogadores online e pela base de fãs que pode ou não expandir com a repercussão positiva do jogo. Depois do fracasso de “Concord” e do constrangimento com as acusações de plágio de artes do jogo, a Sony precisa que “Marathon” tenha bons números para manter a Bungie em atividade. A concorrência com outros jogos online e de tiro de extração como “Arc Raiders” pode comprometer o sucesso do jogo, mas ainda é cedo para cravar o futuro do jogo. A trilogia original está disponível gratuitamente na Steam e é uma boa forma de conhecer o universo do jogo antes de decidir comprar a sequência.

“Marathon” está disponível para Playstation 5, XBOX Series S e X e PCs.

Nota 9.

Confira o trailer do jogo:

 

Ouça o episódio analisando “Marathon” e revisitando o clássico “Calígula” direto do Spotify da Educativa MS:

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