O Assunto é Cinema é um podcast produzido e apresentado pelos jornalistas Clayton Salles e Daniel Rockenbach. O programa fica disponível todas as quintas, às 20h (horário de MS), no Spotify da Educativa MS.
NOTA E CRÍTICA – Clayton Sales
O Assunto é Cinema analisa “Peaky Blinders – O Homem Imortal”, filme dirigido por Tom Harper. O que resta a um homem que perdeu quase tudo na vida? Principalmente, se esse homem tiver um passado de crimes e mortes, mas também de família e amores. Essas questões tentam ser respondidas pelo filme “Peaky Blinders – O Homem Imortal”, produção da Netflix. O longa-metragem retoma a história de Thomas Shelby, desta vez, no ano de 1940 em meio a 2ª Guerra Mundial. Enquanto a Inglaterra era alvo de ofensivas nazistas, o ex-líder da gangue Peaky Bliders vive num melancólico isolamento, onde tenta transformar suas memórias numa biografia. Sim, Thommy está escrevendo um livro. Porém, ele reencontra o passado na pessoa de Kaulo Chiriklo, irmã da cigana com quem teve um filho chamado Duke ainda quando soldado na 1º Guerra Mundial. Duke assumiu o comando dos Peaky Blinders em Birmingham, mas se envolveu em sérios problemas, inclusive com nazistas. Isso tira Thommy do seu retiro para salvar o filho e dançar sua última valsa como o criminoso implacável que fez sua fama.
Sequência da série “Peaky Blinders”, o roteiro foi escrito por Steven Knight, criador da série, e tem a direção de Tom Harper. Em termos estéticos a escolha fica muito clara: manter os padrões de fotografia, movimentos de câmeras, enquadramentos e montagem que tornaram a série o sucesso de público e crítica que conhecemos. Aproveitando-se do rico legado técnico deixado pelas seis temporadas de “Peaky Blinders”, o filme aposta na segurança das fórmulas exitosas de escrita e direção para construir uma narrativa centrada em seu protagonista Thomas Shelby. Se a série se concentrava nas dinâmicas imprevisíveis da família Shelby, o filme aprofunda a jornada final de seu líder. Até porque foi apenas ele que restou vivo, junto com a irmã Ada. Desse modo, os ambientes cinzentos com tons azulados, rompidos pelas vermelhidões espectrais das cenas de ação conversam muito bem com nossas memórias da série. Assim, a familiaridade com a atmosfera da série ajuda a avançar nessa história em torno da ainda mais acentuada melancolia do patriarca, agora um homem de meia-idade. Soma-se a isso a trilha sonora de Antony Genn e Martin Slattery que também usa sonoridades soturnas para nos mergulhar nas profundezas dos perigos que orbitam o mundo de Thomas Shelby.
A melancolia ocupa o lugar da fúria no que diz respeito às atuações. Mesmo nos momentos violentos, tudo é norteado por sombras nas expressões dos personagens, sem direito a alívios cômicos ou momentos de ternura. “Peaky Blinders – O Homem Imortal” é pesado do início ao fim e mesmo as passagens de flashbacks, quando Thommy se lembra da filha pequena morta, é uma das cenas mais devastadoras do filme. Isso é só um exemplo de mais uma grande performance de Cillian Murphy adensando ainda mais a personalidade carregada de Thomas Shelby. Desta vez, ele está em seu momento mais vulnerável psicologicamente e esse aspecto é interpretado com maestria. Destaques também o excelente trabalho de Tim Roth vivendo o astuto John Beckett, o vilão que tenta facilitar a desestabilização do país britânico, e Rebecca Ferguson com sua enigmática Kaulo, uma espécie de catalisadora da volta de Thomas Shelby. Vale mencionar ainda o ótimo Barry Keoghan vivendo Duke Shelby, exalando um misto de inexperiência, frieza e agonia, deixando o caminho promissor para uma nova jornada dos Shelby, já anunciada por Steven Knight. A série vai ser retomada na forma de spin-offs em duas temporadas de seis episódios cada uma.
“Peaky Blinders – O Homem Imortal” é um filme muito bom, que, apesar de expor as feridas do desgaste das últimas temporadas da série da qual se originou, entrega um belo desfecho para a saga de seu grande personagem Thomas Shelby. Talvez o entusiasmo apressado com os episódios iniciais da série tenha criado a falsa impressão de que ela seria apenas um entretenimento épico sobre máfias. Embora isso faça parte do que agora podemos chamar de universo Peaky Blinders, ao longo do tempo, ela se revelou uma crônica sobre como a violência e a criminalidade também são frutos de contextos históricos espalhando sequelas em microespaços como a Birmingham dos anos 1910 aos 1940. Dessa forma, para quem ainda tinha dúvida, o filme assume de vez que é sobre Thomas Shelby, a expressão de um homem assombrado pela guerra na qual serviu, cuja única moral que conheceu é a de um mundo entregue ao caos. Onde reside sua imortalidade? No legado de sangue de um homem que, possivelmente, será honrado pelo seu herdeiro no crime.
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