O Assunto é Cinema é um podcast produzido e apresentado pelos jornalistas Clayton Salles e Daniel Rockenbach. O programa fica disponível todas as quintas, às 20h (horário de MS), no Spotify da Educativa MS.
NOTA E CRÍTICA – Clayton Sales
O Assunto é Cinema revisita o clássico “Calígula – O Corte Final”. É possível um filme esquecível ser lembrado como um clássico? “Calígula” prova que sim, mas com ressalvas que variam dos bastidores da produção até a tentativa de remontagem que o transformam em um exemplo das insanas dinâmicas do cinema. Lançado em 1979 na Itália, o filme é um épico-erótico-político baseado na história do imperador Caio Júlio Cesar, conhecido pelo apelido de Calígula. O longa abrange dos últimos dias do reinado de Tibério, quando Calígula era um príncipe com ambições ao poder em Roma, até seu assassinato após um governo marcado por tirania, insanidade, devassidão e sadismo. O roteiro original é de Gore Vidal e a direção é de Tinto Brass.
Dois anos depois de ser exibido em Cannes, chegou ao catálogo do Prime Video o chamado “Corte Final”. É a remontagem feita a partir de 96 horas de negativos originais filmados em 1976, organizados pelo historiador Thomas Nevogan, baseado no roteiro de Gore Vidal. E por que remontar o filme? Durante a produção, Tinto Brass e Gore Vidal entraram em conflito com o produtor Bob Guccione, fundador da revista adulta Penthouse. Após serem afastados do projeto e com as filmagens em andamento, Bob mandou o novo diretor Giancarlo Lui filmar e inserir as infames cenas pornográficas que fizeram a má fama do longa. O resultado foi o filme lançado entre 1979 e 1980 que causou repulsa geral da crítica, fazendo Tinto Brass exigir sua exclusão dos créditos e ameaçar os produtores de processo. Como a ameaça não se cumpriu, a versão de “Calígula” que ficou marcada é a da obra repugnante e sem nexo. Mesmo assim, o longa-metragem passou a ser lembrado ao longo do tempo como um clássico.
O roteiro do consagrado escritor estadunidense Gore Vidal não é tão espetacular. Trata-se não de reconstituir a biografia de Calígula, mas construir uma narrativa baseada no pouco que se sabe sobre o imperador, misturado ao imaginário a respeito de sua figura excêntrica, depravada e cruel. A partir daí, a trama se transforma em uma espiral de sexo, sangue e loucura somada a ingredientes políticos que simbolizam a corrupção e a degradação da república romana. Calígula não aceitava dividir o poder com o Senado e os pretorianos, e a forma que encontrava para sobrepujar as instituições era a humilhação moral. O Calígula do filme é um homem medíocre e covarde, que o poder herdado transformou em um sujeito perigoso (qualquer semelhança com ditadores e aspirantes atuais não é mera coincidência). Pois essa camada só foi possível de ser desvendada com o “Corte Final”. Ou seja, por baixo do cinema de qualidade duvidosa havia indícios de um bom filme, agora revelados.
E por que “Calígula – O Corte Final” é um bom filme? Uma das razões é o roteiro equilibrado, até certo ponto, entre a simplicidade de uma história sobre déspotas insanos, metáforas sobre a psicologia do poder, simbolizadas, por exemplo, pelas presenças explícitas e espectrais de referências ao pênis, e disputas carnicentas por domínio. As boas ideias do roteiro vêm à tona e o propósito da obra fica mais claro: criticar a luta pelo poder que leva à degeneração humana. Onde o sexo e a nudez, que também existem no “Corte Final”, se encaixam? O imaginário sobre costumes da elite romana dá o tom, já que sexo e nudez, especialmente a masculina, representam uma ideia de liberdade total dos donos do poder. Uma falsa liberdade, porém. Os corpos estão expostos, mas sob controle de Calígula. É o poder do Estado que nasce do micropoder sobre a intimidade humana. As orgias acontecem dentro do palácio, sob supervisão do imperador.
Três pontos atestam a qualidade do filme ocultada por quatro décadas de infâmia. Uma delas é o elenco grandioso, com destaque para Malcolm McDowell em uma das melhores performances da carreira. Seu Calígula parece vulgar, mas tem camadas perfeitamente elaboradas para alegorizar toda a sorte de tiranos que existiram em nossa história. Vale mencionar também Helen Mirren e sua Cesônia contida, como todas personagens femininas daquele mundo patriarcal, mas astuta, e Peter O’Toole e seu Tibério perturbador. Outro destaque é a fotografia exuberante agora evidenciada pela exclusão de todo chorume pornográfico. O vermelho contrasta com a brancura do palácio dando a sensação constante de uma vividez sinistra. Finalmente, a trilha sonora. Para o corte final, foram compostos novos temas por Troy Sterling Nies, que investiu mais na profundidade do protagonista com músicas mais densas do que a soundtrack escrita por Bruno Nicolai. O resultado é melhor.
“Calígula” é um bom filme se olharmos o “Corte Final”. Ele funciona como uma metáfora provocativa e polêmica sobre o poder, e o que pessoas são capazes de fazer para obtê-lo e mantê-lo. A partir da complexa figura do imperador Calígula e pontos obscuros de sua história pouco conhecida, o longa expõe uma relação estreita entre a política e a promiscuidade de um sistema político decadente. Se trouxermos para os dias atuais, veremos o quanto hegemonias são quebradas e nesse caminho, quantos danos são deixados até a derrocada final. Se o “Calígula” lançado inicialmente é um desastre, o filme remontado o redime em alguma medida, apesar de exageros que saem de controle, quase beirando a caricatura. Mesmo que o diretor Tinto Brass não tenha aprovado nem mesmo o corte final do filme, talvez agora estejamos mais à vontade para considera-lo um clássico, se não inesquecível, pelo menos, digno de consideração.
“Calígula – O Corte Final” está disponível na Amazon Prime Video.
Nota 7.
Confira o trailer do corte final do filme:
Ouça o episódio revisitando o clássico “Calígula” e analisando o jogo “Marathon” no Spotify da Educativa MS:
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