Por Alexandre Gonzaga
Tudo o que sei sobre a arte da boa cozinha devo à minha avó, Zilda Beozzo do Amaral Carvalho. Nascida em 1915, foi com ela que aprendi que cozinhar vai muito além do preparo dos alimentos: é um gesto de amor, resistência e transmissão de saberes que atravessam o tempo.
Minha avó aprendeu com imigrantes norte-americanos que se instalaram na região de Americana, no interior de São Paulo, uma receita singular de pãozinho chamada “biski”, possivelmente uma adaptação do termo biscuits. De textura delicada e sabor inconfundível, esse pequeno tesouro gastronômico tornou-se uma marca afetiva da infância e das reuniões familiares. Depois que ela se foi, somente voltei a experimentar algo semelhante muitos anos mais tarde, em um hotel em Buenos Aires. E, ainda assim, nada que se comparasse ao sabor guardado na memória.
Eu a acompanhava até tarde da noite na cozinha, muitas vezes madrugada adentro. Entre panelas, tachos e formas, ela complementava a renda da família produzindo salgadinhos, bolos e doces, numa rotina silenciosa feita de esforço, dignidade e amor. Além de observá-la, cabia a mim um pequeno privilégio infantil: ajudar na limpeza das travessas, raspando o tacho dos ingredientes ainda quentes. Era um deleite simples, quase um ritual secreto. E que delícia era provar aqueles restos generosos, carregados do sabor e da essência do que ela criava.
Foi graças a esse trabalho perseverante que seu filho, Luís Antônio, pôde frequentar um cursinho e, mais tarde, ingressar na Força Aérea Brasileira, tornando-se piloto militar. Ele viria a comandar caças, helicópteros e até mesmo o avião presidencial. Uma trajetória que teve início naquela cozinha modesta, onde o aroma dos bolos se misturava à grandeza dos sonhos.
Entre as guloseimas que também lhe rendiam lucro estava o tradicional bom bocado, preparado com ovos e coco ralado, de cor intensa e sabor profundo. Escuto até hoje o som característico das forminhas de metal sendo suavemente batidas para que o doce se desprendesse e seguisse, com delicadeza, para o papel de decoração. Uma música doméstica que embalava nossas lembranças.
Mas nada despertava tanta expectativa quanto suas coxinhas cremosas, disputadas com entusiasmo quase épico.
Eram motivo de um esperado “assalto” entre a casa da minha avó e a da minha tia Edna. Meus primos, em tom de brincadeira, me rendiam para garantir o primeiro deguste daquelas coxinhas
irresistíveis de Dona Zilda, servidas com elegância em palitos, como pequenas joias douradas da memória afetiva.
Das suas receitas, que lhe renderam elogios mundo afora, além do inesquecível Biski, destaca-se ainda o bolo xadrez, generosamente recheado de chocolate, que eternizou os aniversários de netos e sobrinhos.
Ao ser cortado, revelava um desenho perfeito, como um tabuleiro em preto e branco, encantando pelos olhos antes mesmo de conquistar o paladar. O toque final vinha com uma delicadeza singular: uma rosa colhida em seu próprio jardim, cuidadosamente posicionada sobre o bolo.
Creio que herdei dela, e também de minha saudosa mãe, esse zelo quase ritual com a apresentação, esse capricho que transforma o simples em memorável.
Na casa de Dona Zilda, em Campinas (SP), não existia desperdício. Comida no lixo era um pecado. Nada se perdia, nada se estragava. O leite talhado jamais era descartado: transformava-se em ingrediente. A banha ganhava novo destino e virava sabão, sendo também fonte de economia doméstica.
Cada sobra tinha um propósito, cada resto carregava valor. Sua cozinha era igualmente uma lição silenciosa de respeito, consciência e gratidão pelo alimento.
Na cozinha de Dona Zilda não se preparavam apenas receitas. Ali se moldavam memórias, se alimentavam sonhos e se perpetuava, em silêncio e ternura, uma filosofia de vida onde o cuidado, o afeto e o aproveitamento eram ingredientes essenciais.
Como já disse, na casa da avó Zilda já se praticava a reciclagem, antes mesmo do termo virar moda. A reutilização de vasilhames e outros materiais era uma prática antiga e constante.
Eu, o único neto que mais tempo passou ao seu lado, ficava encarregado de recolher os jornais lidos pela vizinhança. Depois, eram cuidadosamente organizados em pilhas imensas na garagem, onde permaneciam armazenados até serem comercializados.
Zildinha estava à frente do seu tempo. Se virava nos trinta para sustentar a casa. Além de tudo isso, ainda vendia “fazenda”.
Meus pais e eu íamos até a região de Americana, quando existiam grandes indústrias têxteis. O som das máquinas soa até hoje na minha mente. Ela comprava grandes quantidades de tecidos para revender em sua casa.
Também revendia joias. Para enganar os ladrões, elas eram armazenadas em… melhor não dizer, porque acredito que o truque ainda funciona.
Era uma mulher de muitos talentos. Capricorniana. Nunca vi chorar a morte da minha mãe, que partiu aos 38 anos, vítima de lúpus.
Hoje, ao revisitar essas lembranças, compreendo que Dona Zilda não foi apenas uma avó ou uma cozinheira exemplar, mas uma mestra silenciosa que ensinou, com gestos simples e profundos, o valor do trabalho, da dignidade e do amor cotidiano.
Sua presença permanece viva em cada aroma que desperta a memória, em cada cuidado com o que se tem e em cada gesto de respeito pela vida.
Mais do que receitas, ela deixou um legado que atravessa gerações e continua a ecoar, discreto e firme, como a essência de quem jamais será esquecida.
O amigo e jornalista Fernando Kassab prestou-lhe diversas homenagens, entre elas, uma delicada nota publicada no jornal Correio Popular, em dezembro de 1995, quando ela completou 80 anos.
Com expressões como “grande dama” e “gentil moradora da rua Daniel Pedro Müller”, Kassab relembrou, com sensível afeto, as célebres coxinhas cremosas, o bolo xadrez e outros quitutes que marcaram sua trajetória e a memória afetiva de quem teve o privilégio de conhecê-la.
A caridade era outra de suas marcas mais nobres. Todos os anos, contribuía com a tradicional lista de Santo Antônio, destinada à arrecadação de recursos para a paróquia do bairro. O rol de doadores era extenso, reunindo contribuições generosas de familiares, vizinhos e amigos, em um gesto coletivo que refletia o respeito e a admiração que ela inspirava.
Ela costumava dizer que nos deixaria, como herança, sua casa sempre perfumada de aromas. Mas deixou muito mais do que isso.
Deixou exemplo, memória, afeto, disciplina e um legado de amor revelado em cada receita, em cada gesto silencioso e em cada aroma que, ainda hoje, insiste em perfumar as minhas lembranças.
Alexandre Gonzaga é jornalista e escreve sobre cultura, viagens, experiências e reflexões sobre a vida cotidiana.
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