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O futuro é cíclico: o que astronautas, nossa ancestralidade terrestre e as novas gerações de crianças e jovens têm em comum?

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Por Alexandre Gonzaga

Vivemos um tempo em que os olhos se voltam para o espaço, mas os pés ainda precisam firmar-se no chão. Entre o fascínio pelas missões espaciais e a crescente presença da tecnologia em nossas rotinas, chama a atenção um ponto específico: as habilidades exigidas para ser astronauta dialogam surpreendentemente com os traços comportamentais das novas gerações. Mais do que coincidência, vejo aí o reflexo de algo maior: uma herança humana que atravessa os séculos, adaptando-se, mas jamais desaparecendo.

Os millennials (ou Geração Y) cresceram em meio à transformação digital e desenvolveram uma forte busca por propósito e experiências significativas.

A Geração Z, nativa digital, valoriza autenticidade, agilidade e soluções práticas.

A Geração Alpha, por sua vez, já nasce num universo totalmente conectado, enquanto a Geração Beta, que começa a despontar agora, em 2025, chegará a um mundo moldado pela inteligência artificial como parte do cotidiano.

Todas essas gerações carregam, em maior ou menor grau, traços de quem está pronto para viver e liderar, num tempo de complexidade.

Mas o que isso tem a ver com astronautas? Tudo. As competências exigidas de um astronauta como resiliência, equilíbrio emocional, raciocínio lógico, habilidade manual, capacidade de tomar decisões sob pressão e conhecimento multidisciplinar não são exclusivas das agências espaciais. São, na verdade, habilidades ancestrais.

O homem das cavernas precisou delas. Agricultores e navegadores as dominaram para sobreviver e prosperar.

E agora, em pleno século XXI, essas mesmas competências ressurgem como indispensáveis para quem quer habitar ou transformar este novo mundo.

É curioso, inclusive, notar como os jovens de hoje, mesmo imersos em tecnologias avançadas, redescobrem o valor do fazer com as mãos.

Astronautas precisam saber tanto apertar um parafuso em órbita quanto realizar cálculos complexos. E jovens das gerações Z e Alpha, apesar de terem o mundo na palma da mão, via smartphone, também querem aprender marcenaria, jardinagem, culinária, programação, e arte. Ou seja, querem criar com o corpo e com o cérebro. Querem sentir que dominam algo real, palpável. E isso não é regressão: é consciência.

A história humana é cíclica. O que hoje parece ser o auge da inovação é, muitas vezes, a repetição de uma sabedoria antiga, apenas adaptada ao contexto atual.

E se o futuro nos levar ao espaço, à inteligência artificial e a novas formas de habitar o planeta, será a mesma base de sempre: coragem, curiosidade, técnica, criatividade e trabalho coletivo. Características base da nossa sobrevivência sob o planeta.

A cena inicial do filme “2001: Uma Odisseia no Espaço” espelha bem a transição da humanidade, desde seus primórdios até a exploração espacial, com o esforço de hominídeos pré-históricos lutando por recursos e descobrindo o uso de ossos de animais como ferramentas.

No fim do mundo, em Punta Arenas, na Patagônia chilena, encontra-se o Museu Nau Victoria, que abriga uma réplica em escala real da embarcação que protagonizou, entre 1519 e 1522, a primeira circunavegação do globo, durante a expedição de Fernão de Magalhães.

Quem visita o museu em Punta Arenas tem a chance de ver a dimensão do feito para a época, e também de se emocionar como eu: “era uma casquinha de ovo”.

Cerca de 270 homens partiram do porto espanhol de Sanlúcar de Barrameda, não porque a vida tivesse pouco valor — apenas 30 voltaram ao final da jornada —, mas porque a vontade de provar a existência de outros mundos e riquezas era maior do que o medo de uma Terra plana com um precipício no fim.

A estação antártica brasileira Comandante Ferraz, localizada na Baía do Almirantado, na Ilha Rei George, no continente gelado, revela um solo coberto por ossos deixados por navios baleeiros no início do século XX. “Como conseguiram chegar até aqui?”, me perguntei novamente. Hoje, ainda aguardamos uma janela meteorológica numa viagem de avião que dura 4 horas até o aeródromo Teniente Rodolfo Marsh Martin, na base chilena, para alcançar a nossa base de pesquisa.

As novas gerações não estão apenas preparadas para esse futuro. Elas são esse futuro. E talvez, ao observarmos suas habilidades e comportamentos, estejamos, de alguma forma, reenxergando o que é ser humano – com os olhos no infinito e as mãos na tarefa de todos os dias: um pincel, um martelo ou um bisturi a laser.

 

Alexandre Gonzaga é jornalista e traz na bagagem experiências que atravessam fronteiras: já esteve no silêncio imenso da Antártica, acompanhou de perto a Missão de Paz do Brasil no Haiti e registrou os passos da Agência Espacial Brasileira em sua jornada rumo ao futuro.

 

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