Por Alexandre Gonzaga
Com o início do ano, a indústria do turismo ganha mais fôlego em todo o país, impulsionada pelo período de férias e do verão. Destinos consolidados e emergentes, incluindo o Mato Grosso do Sul, registram maior procura, aquecendo setores como hotelaria, transporte, gastronomia e serviços, além de fortalecer economias locais e gerar empregos.
Mas antes de virar indústria, o turismo foi gesto humano. Viajar sempre significou buscar cura, conhecimento, fé ou simplesmente atravessar o desconhecido. A Revolução Industrial deu forma e escala a esses deslocamentos e, no Brasil, a chegada da família real acelerou cidades, hábitos e caminhos, inaugurando novas maneiras de ocupar e compreender o território.
Falar de turismo no Brasil é falar de um país continental, onde a atividade turística acontece de forma permanente – e também sazonal -, e diversa. Do litoral ao interior, das grandes capitais às pequenas comunidades, o turismo se manifesta ao longo de todas as estações do ano, em múltiplos segmentos: natureza, cultura, eventos, negócios, gastronomia, religiosidade e experiências. Mais do que deslocamento e lazer, o turismo brasileiro se consolida como uma indústria estratégica, alinhada à preservação ambiental, à valorização cultural e à sustentabilidade.
Entendido como indústria, o turismo é uma atividade transversal. Conecta transporte, hospedagem, alimentação, cultura, meio ambiente, agricultura, comércio e serviços, gerando empregos, renda e tributos em diferentes escalas territoriais. Para compreendê-lo como setor estratégico, é preciso enxergar simultaneamente suas dimensões econômica, social, cultural e ambiental, em diálogo com a agenda do desenvolvimento sustentável.
Do ponto de vista econômico, o turismo diversifica a base produtiva e impulsiona pequenos negócios, mas exige infraestrutura, qualificação profissional e boa gestão para que seus benefícios não aprofundem desigualdades. Socialmente, pode favorecer a inclusão e fortalecer comunidades, ao mesmo tempo em que impõe desafios, como a precarização do trabalho, a gentrificação e o aumento do custo de vida em destinos mal planejados. Exemplos recentes em cidades europeias, como Barcelona, revelam os limites do turismo de massa e reforçam a importância do planejamento público.
Culturalmente, o turismo pode valorizar patrimônios materiais e imateriais e resgatar saberes tradicionais, desde que as comunidades mantenham protagonismo. Ambientalmente, demanda responsabilidade e limites claros, para não degradar os ecossistemas que sustentam a própria atividade. Nesse contexto, o papel do poder público é central, seja no planejamento, na regulação, na fiscalização ou na promoção do turismo, sempre orientado pela sustentabilidade.
É nesse cenário que a formação acadêmica ganha relevância. Em Mato Grosso do Sul, a Universidade Estadual de Mato Grosso do Sul, a UEMS, tem papel destacado na qualificação profissional e na produção de conhecimento aplicado ao turismo. Segundo a professora Dra. Débora Fittipaldi Gonçalves, o curso de Turismo em Campo Grande, criado em 2011 e com a primeira turma formada em 2014, já formou cerca de 150 turismólogos. “O impacto está principalmente na qualificação da prestação de serviços e nas pesquisas para o turismo”, afirma. A UEMS mantém cursos de Turismo em Campo Grande e Dourados.
Além da formação, a universidade desenvolve projetos que conectam turismo, cultura e território. Um exemplo é o projeto “Benzer, rezar e curar”, voltado ao registro e à catalogação de práticas tradicionais de benzimento, rezas e curas populares, articuladas ao turismo de experiência no contexto da Rota Bioceânica. A iniciativa envolve pesquisa de campo, entrevistas e registros audiovisuais, resultando em acervos e materiais voltados à preservação cultural e à interpretação turística, com protagonismo das comunidades.
A professora Débora, coordenadora do curso de Turismo na unidade da UEMS em Campo Grande, destaca que a Rota Bioceânica, corredor de integração entre Brasil, Paraguai, Argentina e Chile, facilitará o acesso a destinos já consolidados e a outros em consolidação, além de abrir oportunidades para pequenas comunidades e cidades intermediárias. “É um campo estratégico para o turismo de natureza, cultural e de experiências, além de um amplo espaço de atuação para o bacharel em Turismo”, observa.
O reconhecimento da produção acadêmica sul-mato-grossense também se projeta no cenário nacional. A UEMS celebrou recentemente a vitória da professora Dra. Daniela Sottili Garcia, da unidade universitária de Campo Grande, como vencedora nacional da categoria Academia na 4ª edição do Prêmio Nacional do Turismo. Considerada o “Oscar” do turismo no Brasil, a premiação é promovida pelo Ministério do Turismo em parceria com o Conselho Nacional de Turismo e reconhece práticas inovadoras, iniciativas transformadoras e trajetórias de destaque no setor, com escolha por votação popular em todo o país. A conquista reforça o papel de Mato Grosso do Sul na produção de conhecimento, na inovação e no fortalecimento do turismo brasileiro.
Outro marco relevante é a escolha de Campo Grande como sede da COP15 sobre Espécies Migratórias, em 2026. “Sediar a COP15 coloca Mato Grosso do Sul no centro do debate global sobre conservação, clima e desenvolvimento sustentável”, afirma Débora. O evento, que reunirá delegações de mais de 130 países, reconhece o peso ecológico do Pantanal e reforça a imagem da capital como referência em observação de aves, além de deixar legado em infraestrutura, qualificação profissional e visibilidade internacional.
Assim, ao percorrer o Brasil e, em especial, Mato Grosso do Sul, o turismo se revela como mais do que deslocamento ou consumo. É expressão de território, cultura, meio ambiente e escolhas políticas. Uma indústria transversal que exige planejamento, conhecimento e visão de futuro e que, quando bem conduzida, transforma viagens em desenvolvimento e paisagens em patrimônio coletivo.
Alexandre Gonzaga é jornalista e escreve sobre cultura, viagens, experiências e reflexões sobre a vida cotidiana.
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