Durante décadas, milhões de brasileiros aprenderam na escola que o Brasil não tinha montanhas. A explicação era simples: como o território brasileiro não foi formado por grandes dobramentos modernos da crosta terrestre, como os Andes ou o Himalaia, suas elevações eram classificadas como serras, morros ou planaltos, mas não como montanhas.
Agora, esse entendimento mudou
Após anos de estudos, geógrafos e geólogos brasileiros concluíram um amplo trabalho de revisão dos critérios utilizados para classificar o relevo nacional. O resultado foi incorporado ao Sistema Brasileiro de Classificação de Relevo, desenvolvido pelo IBGE em parceria com o Serviço Geológico Brasileiro, universidades e especialistas da área. O trabalho foi consolidado em 2026 e servirá de base para os próximos mapas oficiais do país.
Uma das principais consequências dessa revisão é o reconhecimento de que o Brasil possui, sim, dezenas de montanhas, distribuídas por 14 estados. E Mato Grosso do Sul está nessa lista. A formação reconhecida como montanha no Estado é o Maciço do Urucum, localizado em Corumbá, próximo à fronteira com a Bolívia.
Com altitudes que chegam a cerca de 1.060 metros, o maciço já era conhecido por sua importância geológica, pelas grandes jazidas de minério de ferro e manganês e pela paisagem que contrasta com a planície pantaneira. A novidade é que, dentro da nova classificação científica, ele passa a integrar oficialmente o conjunto das montanhas brasileiras.
Para saber as razões que levavam a dizer que o Brasil não tinha montanhas é preciso buscar a definição de “montanha”. Mas, ao contrário do que muita gente imagina, não existe um conceito universal. Cada país e cada tradição científica adotam critérios próprios.
Na Inglaterra, por exemplo, durante muito tempo convencionou-se que uma elevação precisava ultrapassar cerca de 600 metros para ser considerada uma montanha. Em outros países, o limite pode ser diferente, assim como a importância dada à inclinação das encostas, ao desnível em relação ao entorno ou à forma do relevo.
No Brasil, predominou durante décadas um conceito fortemente ligado à origem geológica. Como as grandes cadeias montanhosas do planeta surgiram por dobramentos recentes da crosta terrestre, e o território brasileiro é muito mais antigo e geologicamente estável, consolidou-se a ideia de que aqui existiriam apenas planaltos, serras e morros.
Os pesquisadores afirmam, porém, que esse critério era excessivamente restritivo e não refletia a diversidade do relevo brasileiro. A proposta de atualização, conduzida por especialistas do IBGE, entre eles a geógrafa Rosângela Botelho, amplia a classificação e considera também características como altitude relativa, declividade, amplitude do relevo e aspectos geomorfológicos, independentemente da origem tectônica da formação.
O reconhecimento das montanhas não foi a única novidade. Outra mudança significativa envolve um termo bastante conhecido da geomorfologia brasileira: depressão. Até agora, essa palavra era utilizada para designar áreas de relevo relativamente plano ou suavemente inclinado, localizadas em cotas inferiores às regiões vizinhas. Os especialistas concluíram, porém, que o termo gerava interpretações equivocadas, já que muitas pessoas o associavam à ideia de buracos ou áreas afundadas.
Por isso, a nova classificação substitui essa nomenclatura por superfície rebaixada, uma expressão considerada mais precisa para identificar terrenos situados em níveis mais baixos que o relevo ao redor, sem sugerir necessariamente uma cavidade ou afundamento.
A atualização também busca padronizar a linguagem utilizada por pesquisadores, órgãos públicos, universidades e materiais didáticos, estabelecendo critérios únicos para representar o relevo brasileiro.
Na prática, para quem visita o Maciço do Urucum, nada muda na paisagem. A alteração é científica e cartográfica. Ela influencia a forma como o território brasileiro será representado em mapas, livros didáticos, pesquisas e levantamentos oficiais. As novas definições passarão a integrar os produtos cartográficos do IBGE, incluindo a próxima atualização do mapa físico do Brasil, prevista para publicação ainda este ano.
Mais do que uma simples troca de nomes, a revisão mostra que a ciência está em constante evolução. À medida que novos estudos ampliam o conhecimento sobre o relevo brasileiro, conceitos ensinados por décadas podem ser revistos. E uma das maiores curiosidades dessa atualização é justamente esta: sim, Mato Grosso do Sul tem montanhas. E agora elas passam a fazer parte oficialmente da geografia brasileira.
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