Por Alexandre Gonzaga
Há pessoas que passam a vida guardando o melhor para um dia especial. A louça fina permanece intocada no armário, o faqueiro de prata repousa nas gavetas e as taças de cristal seguem alinhadas nas prateleiras como peças de exposição. Tudo reservado para uma ocasião perfeita que, muitas vezes, nunca chega.
Essa lógica não é prudente. Nunca será. Na verdade, é uma inversão silenciosa das prioridades da vida. As coisas ficam. As pessoas e os fatos é que passam.
As prateleiras cheias de cristais e pratas podem não significar absolutamente nada. Podem brilhar, impressionar à primeira vista e sugerir valor ou tradição. Mas, se permanecem apenas como enfeites, sem participar da vida, são apenas objetos bem guardados.
O valor verdadeiro não está na raridade da peça, mas na história que ela ajuda a construir. Uma taça ganha sentido quando participa de um brinde. Um prato, quando serve uma refeição compartilhada. Um talher, quando acompanha uma conversa que se estende pela noite.
Objetos são feitos para atravessar o tempo. Louças, talheres, cristais e vinhos podem permanecer intactos por décadas. Já os encontros, as conversas e os afetos são passageiros. Eles acontecem uma única vez e, depois, tornam-se memória.
Talvez por isso tenha tanto peso um conselho lembrado pelo cantor Ronnie Von, que ouviu do amigo Gugu Liberato uma frase simples e poderosa. Durante um almoço em casa, Ronnie comentava que preferia guardar o vinho raro presenteado pelo amigo para abri-lo apenas quando acontecesse algo realmente importante, como, por exemplo, a assinatura de um novo contrato. Gugu ouviu e respondeu de forma direta que era melhor usar sempre o melhor faqueiro, a melhor louça e beber o melhor vinho, porque a vida é curta.
A lição é direta. Não guarde o melhor do que você conquistou para uma celebração que pode ultrapassar a sua própria vida.
Use a sua melhor roupa agora. Usufrua do que conquistou com seu suor hoje. Celebre com os amigos o melhor vinho. Agradeça e compartilhe aquilo que a terra deu e ao que um dia todos nós também voltaremos.
Há também uma imagem poderosa na tradição cristã. Um dos primeiros milagres de Jesus Cristo acontece justamente em uma festa de casamento, nas Bodas de Caná. Quando o vinho acaba e os noivos correm o risco de passar vergonha diante dos convidados, sua mãe, Maria (mãe de Jesus), pede que ele intervenha. A água então se transforma em vinho e a celebração continua.
Não é apenas um milagre sobre vinho. É também uma mensagem sobre a alegria compartilhada e sobre a importância de preservar o encontro, a mesa e a festa da vida.
No fundo, há uma lembrança simples que às vezes esquecemos. Você é o senhor das coisas que conquistou. Elas existem para servir à sua vida, não para ficar aprisionadas em armários ou vitrines.
Use-as todos os dias. Não por vaidade, mas para lembrar quanto custaram. Em esforço, em trabalho e em tempo de vida.
A cultura e a arte, embora também possam ser precificadas, seguem essa mesma premissa de apreço e contemplação. Elas florescem da experiência vivida, da troca entre pessoas e da memória construída em comum. Seus valores monetários, no fim das contas, ficam para herdeiros ou especuladores.
Abrace seu filho agora. Beije sua esposa ou companheiro agora. Sente-se à mesa com quem está ao seu lado. Lembre-se de algo essencial.
As coisas servem a você, e não você às coisas.Guardar tudo para depois pode significar adiar justamente aquilo que dá sentido à existência: o encontro, a conversa, a presença de quem está à mesa. No fim, talvez a ocasião especial não esteja no futuro. Talvez ela esteja escondida exatamente no presente.
Alexandre Gonzaga é jornalista e escreve sobre cultura, viagens, experiências e reflexões sobre a vida cotidiana.
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