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O ASSUNTO É CINEMA analisa “Marty Supreme”

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O programa da FM Educativa 104.7 de MS, “O Assunto é Cinema” analisa o filme “Marty Supreme”. Produzido e apresentado pelos jornalistas Clayton Salles e Daniel Rockenbach, o quadro vai ao ar todas as quintas, às 20h (horário de MS), pela rádio Educativa 104.7 FM.

NOTA E CRÍTICA – Clayton Sales

 O ASSUNTO É CINEMA analisa “Marty Supreme”, vencedor e indicado a diversas estatuetas, entre elas, o Oscar, BAFTA e Globo de Ouro. Ambientado em 1952, o longa-metragem narra a jornada de Marty Mauser, jovem vendedor de sapatos do subúrbio de Nova York que sonha em disputar um torneio internacional de tênis de mesa na Inglaterra. Sua obsessão é conseguir dinheiro para viajar até Londres, mas obstáculos surgem em seu caminho, que ele tenta superar num misto de determinação e desespero.

Escrito e dirigido por Josh Safdie, a trama é vagamente inspirada na história do mesatenista americano Marty Reisman. O filme começa com um ardil muito interessante. No início, parece um típico drama esportivo sobre a pretensa vocação vencedora do americano médio a partir de sua obstinação e carisma. Como dezenas de obras modorrentas que Hollywood já produziu. Porém, graças a uma direção muito bem-organizada e uma montagem com excelente timming de comédia, o enredo se vira gradativamente para o interior do protagonista. Aos poucos, nos envolvemos com Marty e criamos empatias inesperadas, não pelo clichê do homem comum atrás de seus sonhos, mas pela sua personalidade instável e imprevisível. Há doses generosas de sarcasmo permeando a maior parte do filme, que serve como elemento equilibrante de um drama crescente com potencial explosivo. O drama de Marty Mauser.

Esse drama ganha proporções encantadoras, em grande parte, graças a atuação de Timotheé Chalamet, no melhor papel de sua carreira, que já teve bons projetos, mas nada extraordinário. Desta vez, quando escalado para algo excepcional pela primeira vez, o jovem ator de 30 anos não decepcionou. A construção de seu Marty Mauser é carregada de complexidades muito bem costuradas e a entrega do ator ao papel é nítida, quase tocando a fronteira da afetação, felizmente não a ultrapassando. Ele é intenso e intempestivo, um tufão de sentimentos e incertezas, e uma bomba prestes a estourar ou implodir. Ao mesmo tempo que sonha em ver o tênis de mesa, ser reconhecido como esporte sério, ele lida com as agruras de sua vida suburbana e familiar. Tudo gira em torno de Marty, como um bom filme de personagem exige. O elenco de “Marty Supreme” ajuda muito a elevar a intensidade do protagonista, demonstrando uma química bem turbinada por um roteiro inventivo.

Tecnicamente, além da mencionada edição ágil que em raros momentos compromete a compreensão da história, a fotografia valoriza Marty em seu ambiente natural e fortalece o brilho que busca quando está na mesa de tênis. A cena do jogo-exibição com o mesatenista Koto Endo é espetacular. O ator japonês Koto Kawaguchi é um atleta surdo que se sai bem ao interpretar um antagonista não-convencional, sem a pecha de vilão geopolítico dos EUA que dramas esportivos utilizam com alguma frequência. O filme foge do chavão americano-legal-contra-não-americano-malvado e aposta na veracidade de uma disputa entre um atleta consolidado e um aspirante talentoso, mas afobado. Esse confronto se soma a outros exemplos de como a estrutura do filme, do aspecto técnico ao narrativo, foi pensada para penetrarmos no âmago de Marty Mauser.

“Marty Supreme” é um ótimo filme, com doses de comédia servindo de catalisador narrativo para um drama com sombra da tragédia sobre um homem comum tentando escapar do mundo em que vive graças a sua vocação esportiva. Enquanto seu momento não chega, Marty Mauser sobrevive em sua rotina de trambiques e apostas. Longe de ser apresentado como herói popular ou marginal perigoso, ele simboliza o sujeito comum que luta com as armas que dispõe, muitas questionáveis, para alcançar sua meta. Ele cai nas garras da máquina capitalista quando se humilha para Milton Rockwell, empresário cuja esposa Kay transa com Marty, um dos poucos momentos insossos do filme, não pela ideia, mas pela sua execução. Além disso, um velho mafioso e um patrão explorador completam o espaço humano hostil de onde emanam seus desejos.

Marty Mauser não representa o sonho americano pós-guerra, como pode parecer. Ele é apenas um homem tentando escapar do padrão de vida medíocre dos EUA dos anos 1950 usando a percepção segura de si do seu talento esportivo.

Assista o trailer:

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