O Assunto é Cinema é um podcast produzido e apresentado pelos jornalistas Clayton Salles e Daniel Rockenbach. O programa fica disponível todas as quintas, às 20h (horário de MS), no Spotify da Educativa MS.
NOTA E CRÍTICA – Clayton Sales
O que é um lugar, na acepção abrangente do termo, senão uma construção obtida a partir de uma perspectiva? Boa questão filosófica levantada por um fenômeno da internet, agora transformado em filme de terror. Entrou em cartaz nos cinemas o longa-metragem “Blackrooms – Um Não-Lugar”. Ambientado em 1990, ele conta a história de Clark, arquiteto frustrado que tenta manter uma loja de móveis que não engrena. Para conviver com essas e outras frustrações, como ser expulso de casa pela ex-mulher, Clark faz terapia com a psiquiatra Dra. Mary Kline. Um dia, ao descer no porão da loja, ele se depara com uma estranha abertura na parede. Clark entra na fenda como se atravessasse a parede e encontra uma espécie de réplica vazia da loja. No consultório, Clark tenta convencer Dra. Mary dessa verdade, mas ela não acredita. Então, para provar, pede ajuda a dois funcionários da loja para filmarem o lugar misterioso, mas quando todos estão nele, coisas perigosas acontecem.
O roteiro foi escrito pelo diretor e youtuber Kane Parsons, baseado nos próprios filmes curtos para internet sobre os Backrooms, espaços fictícios além do mundo concreto onde ocorrem coisas anormais. Diga-se de passagem, um roteiro muito bom, costurado com habilidade, principalmente ao conseguir transformar a falta de lógica em uma trilha segura. A partir dessa premissa diferenciada, o longa constrói uma história preambular que dialoga com o imaginário sobre a mente humana. Ou seja, a combinação entre a fronteira da realidade e o delírio, com um sujeito fracassado e uma psiquiatra assombrada com o paciente a ponto de entrar em sua loucura, gerou uma produção inteligente e palatável. Além do roteiro, méritos para a direção que conduz nossos olhos por uma corrente interminável de desatinos que nos deixa perturbados justamente por procurarmos um sentido. Quando o fio da meada parece surgir, uma nova parede se levanta.
Nos aspectos técnicos, “Backrooms – Um Não-Lugar” utiliza com sabedoria os recursos do terror, como os planos oblíquos indicando instabilidade e a fotografia cercada por áreas de sombra e uso de ruídos ambientais. As atmosferas para cada etapa que os personagens percorrem são bem elaboradas e casam com a direção sóbria e inventiva. Ajudam muito o uso minimalista e estratégico da ótima trilha sonora do próprio Kane Parsons. Além disso, ao lançar mão dos frequentes momentos silenciosos sem apelar à comodidade do susto sonoro, o longa consegue nos colocar dentro do labirinto com uma falsa sensação de conforto representada pela cor amarela que prevalece após a porta de entrada. O contraste inicial quando Clark descobre a porta misteriosa pode, com algum esforço semiótico, simbolizar a escolha entre o conforto melancólico do mundo conhecido e a incerteza atraente da descoberta do oculto. Qualquer semelhança com as escolhas que fazemos na vida, pode ser apenas coincidência. Ou não.
Quanto às atuações, o destaque é a versatilidade de Chiwetel Ejiofor com seu Clark cheio de nuances diferentes ao longo do filme. Do aparente executivo bem sucedido do início, passando pelo fracassado desesperado e pelo temeroso explorador do desconhecido, culminando no psicopata rendido à própria derrota, sua atuação combina com a premissa da obra. Merece elogios também a performance de Renate Reinsve com sua Mary compenetrada, compulsiva e que assume a porção destemida próxima do desfecho. Aliás, o final de “Backrooms” deixa um pouco a desejar porque desmonta a tônica que havia adotado com maestria. Apesar de manter a arquitetura das cenas, nesse momento, o filme cai no lugar-comum e entrega um final aceitável, mas frustrante em termos de possíveis inovações. Ao menos, o término é coerente, mesmo que a incoerência seja trunfo.
“Backrooms – Um Não-Lugar” é um filme muito bom, que converte a procura por nexos em espetáculo interativo ao nos colocar no labirinto que poderia ser nosso inconsciente. Isso é reforçado pelo fato da Dra. Mary ser uma psiquiatra e sua curiosidade a levar até o não-lugar onde a ação ocorre. Então, uma leitura plausível é a de que o Backroom seria a cabeça atordoada de Clark em estado neurótico. Um terror psicanalítico? Mas essa é uma percepção óbvia demais. Talvez o não-lugar seja menos um espaço físico, mental ou metafísico, e mais um convite a um tipo de cinema que não prioriza a linearidade ou a busca por uma moral da história, mas provoca sensações como a perturbação e reflexões sobre o conceito de lugar. O lugar transcende o aspecto material e se soma a perspectivas sobre ele. Uma casa é apenas uma edificação de concreto, mas quando a decoramos e passamos a habitá-la, com o tempo, ela se torna objeto de afetos. E o não-lugar? O filme propõe boas questões postadas em uma obra de terror gestada na internet. Quem sabe o ciberespaço não se configure como promissora fonte para a renovação do gênero, tanto no conteúdo quanto na forma? E que, em vez de monstros, o horror resida na escuridão que antes os abrigava como alegoria das incertezas que desafiam nossa percepção.
Nota: 9,0.
Confira o trailer de “Backrooms”:
Ouça o episódio analisando “Backrooms”, entre outras atrações, no Spotify da Educativa MS:
Foto em destaque: Divulgação.
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