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O Assunto é Cinema – Analisando O Diabo Veste Prada 2

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O Assunto é Cinema é um podcast produzido e apresentado pelos jornalistas Clayton Salles e Daniel Rockenbach. O programa fica disponível todas as quintas, às 20h (horário de MS), no Spotify da Educativa MS.

NOTA E CRÍTICA – Clayton Sales

Quando lançado em 2006, o primeiro filme colocou o glamouroso universo da moda no radar do público. Afinal, para além de situações cômicas, a obra tocou de leve em questões como a solidão de quem se entrega aos cânones dos altos escalões do mundo corporativo e a resignação de quem se sente coagido pelas regras tácitas e nocivas da exploração no trabalho. Então, a sequência de um trabalho tão marcante era um risco colossal. Porém, o risco foi assumido e o segundo filme é resultado dessa coragem somada à criatividade. Chegou aos cinemas “O Diabo Veste Prada 2”, novamente dirigido por David Frankel e novamente escrito por Aline Brosh McKenna. Havia um desafio maior: elaborar uma nova história sem o apoio da trama oferecida pelo romance de Laura Weisberger, base do primeiro longa-metragem. Desafio tão estimulante como organizar uma fashion week.

“O Diabo Veste Prada 2” traz de volta Andrea “Andy” Sachs, agora uma jornalista respeitada que acabara de vencer um prêmio de reportagem. Só que no dia da premiação, ela e seus colegas de redação são comunicados de suas demissões por mensagens de celular. Desempregada, Andy vai buscar emprego adivinha onde? Na revista Runaway, é claro. Então, sua vida se reconecta à de Miranda Priestly, cuja situação também não está nada confortável. Ela ainda tem algum poder na revista, mas as mudanças provocadas pelos tempos digitais a obrigam a recalcular suas estratégias. Por fim, Andy e Miranda terão que se ajudar a sobreviver na nova selva, ainda regada ao brilho elegante da alta costura.

O primeiro aspecto que chama atenção positivamente é a mudança de foco. Embora a moda também seja o alicerce temático de “O Diabo Veste Prada 2”, ela passa a dividir espaço com um elemento menos sofisticado: o jornalismo. Se no filme de 2006, Andrea Sachs era uma recém-formada inexperiente que aceita tarefas de estagiária, desta vez, ela busca seu espaço como repórter de carreira. A Runaway nunca foi sua meta profissional, mas a necessidade de um emprego mais estável a levou para a revista de moda em “O Diabo Veste Prada”. Agora, no retorno à publicação, Andy luta para se impor como jornalista, guinada que traz um frescor inteligente para a trama. Uma boa saída do roteiro para dar impulso a uma nova história que justificasse a sequência. Funciona como argumento porque norteia o ótimo conflito entre a tradição da profundidade jornalística e a modernidade superficial do ciberespaço. E o mais interessante: ele altera a órbita de Miranda Priestly, tornando fascinante vê-la vulnerável às transformações e, junto com Andy, lutando não contra mudanças inevitáveis, mas para evidenciar o jornalismo como relevante para o público da Runaway.

Como é uma comédia dramática, a direção consegue trazer de volta o estilo que ajudou a sacramentar o sucesso do primeiro filme. O humor suave com elementos de siticom e momentos sérios em doses bem calculadas para não adensar demais a história ditam os rumos da narrativa. Os pormenores técnicos são pensados sob esse parâmetro, refletindo nos movimentos ágeis de câmera sem que um milímetro do enredo seja perdido, além da fotografia que equilibra o brilho da moda e a rusticidade controlada dos espaços em que ela se ausenta. Além disso, a montagem aproveita a dinâmica da obra de 2006 e impõe o mesmo ritmo moderado que permite tanto a diversão quanto a percepção de camadas mais sérias. O entrosamento da mesma equipe foi crucial para que o “O Diabo Veste Prada 2” evoque as referências de duas décadas atrás e entregue uma sequência com sabor de novidade. E de quebra, deixe ganchos para uma possível nova continuidade.

Em entrevistas recentes, o elenco afirmou que a força da história está no quarteto que protagoniza a obra. Nada mais correto e “O Diabo Veste Prada 2” atesta isso. Meryl Streep vive uma Miranda com menos daquela adorável empáfia, até porque ela está diante de ameaças dos novos tempos e isso amplia maravilhosamente o alcance de sua personagem. Miranda frágil era o que precisávamos. Por outro lado, Anne Hathaway entrega uma Andy mais segura e imponente, sem perder a humildade que a conecta a suas raízes populares. Sim, Andy Sachs é uma trabalhadora, vive realidades como desemprego e boletos para pagar como qualquer jornalista (como eu, por exemplo). Completam o elenco principal Stanley Tucci, que não sofreu tantos impactos em seu Nigel, que continua um escudeiro leal à Miranda, ao carinho com Andy e aos ideais de excelência da Runaway. Na verdade, ele ainda funciona como um suporte conceitual da trama. O único problema é Emily, interpretada com eficiência por Emily Blunt. Embora sua situação seja a que sofreu a mudança mais drástica, já que, de secretária frustrada da Runaway, ela se tornou alta executiva de uma multinacional da moda, seu arco é mal resolvido. Uma pena, pois sua personagem talvez fosse a que mais tivesse margem para uma transformação radical.

De um modo geral, “O Diabo Veste Prada 2” é um ótimo filme, com roteiro bem costurado, salvo pela jornada de Emily, e direção bem aprumada, resgatando ideias fantásticas do primeiro longa e adicionando ingredientes inéditos. Um deles, novas canções para se somarem à trilha sonora original de Theodore Shapiro, outro remanescente do primeiro filme. Por isso, o longa diverte como uma boa comédia, levanta novos pontos de reflexão sobre ambientes de trabalho no contexto atual e emociona com arcos, em sua maioria, bem elaborados. Ele é menos sobre moda e mais sobre os conflitos entre jornalismo tradicional e mundo digital, com uma discreta crítica às nebulosas negociatas entre corporações de mídia e big techs. O filme consegue os feitos de avivar a memória afetiva da obra original, oferecer um novo enredo de qualidade e abrir clareiras para um futuro promissor da franquia. Vale assistir porque não é tão frequente uma sequência honrar a obra antecessora e superá-la em vários aspectos.

“O Diabo Veste Prada 2” está em cartaz nos cinemas.

Nota: 9.

Confira o trailer de “O Diabo Veste Prada 2”:

 

Ouça o episódio analisando “O Diabo Veste Prada 2”, entre outras atrações, no Spotify da Educativa MS:

 

Foto em destaque: Divulgação.

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