O Assunto é Cinema é um podcast produzido e apresentado pelos jornalistas Clayton Salles e Daniel Rockenbach. O programa fica disponível todas as quintas, às 20h (horário de MS), no Spotify da Educativa MS.
NOTA E CRÍTICA – Clayton Sales
Ainda sob a repercussão das recentes passagens de Shakira e Bad Bunny pelo Brasil, com espetáculos lotados e grande repercussão em todas as mídias, é importante olhar para o passado, não como algo superado, mas para uma história que continua influenciando o presente. Um presente onde artistas latino-americanos são postos no epicentro da indústria musical, ainda dominada por estéticas estadunidenses e europeias. Se Shakira globalizou culturas deslocadas do eixo anglo-saxão e Bad Bunny, por enquanto, não abre mão do idioma espanhol em suas músicas, houve alguém que, muito tempo antes, conectou a latinidade na tomada do mercado mais rentável do planeta. Alguém que temperou as musicalidades latinas e africanas com o blues negro de Chicago e o rock psicodélico que fazia a cabeça dos hippies ianques. Um guitarrista mexicano com a trajetória ascendente de quem se impôs com talento, sabedoria e doses de loucura destemida. Seu nome é Carlos Santana, cuja história é contada no documentário “Carlos” (2023), disponível na Amazon Prime Video.
Dirigido por Rudy Valdez, “Carlos” escolheu como recorte temporal o intervalo entre dois momentos. Na verdade, foram duas portas de entrada em sua carreira, como ele mesmo afirma no filme: o Festival de Woodstock em 1969 e o álbum “Supernatural” de 1999. Então, Carlos Santana aproveita o espaço para fazer um inventário de sua jornada na música, desde as influências do pai, um violinista mariachi que tentou levar o filho para o mesmo caminho, passando pela paixão do jovem Santana por B.B. King, Jimi Hendrix e John Lee Hooker, até as grandes consagrações da indústria cultural que o acolheu e, de certa forma, o modelou. Além disso, a obra aborda as relações familiares, como o primeiro casamento com a escritora Deborah King, que durou 34 anos, sem deixar de destacar sua importância para a carreira do guitarrista. O documentário é um memorial da trajetória do astro do rock latino sob sua própria perspectiva.
O filme é conservador em sua estrutura narrativa, seguindo uma trilha cronológica onde cada momento relevante é contado pelas palavras do músico e de poucos personagens. Entre eles, estão as irmãs do artista, sugestivamente sentadas à mesa em uma varanda juntas com a baterista Cindy Blackman Santana. Uma singela conexão entre as origens familiares e o atual estado afetivo representado pela esposa e incrível baterista de sua banda de apoio. A ideia foi criar uma atmosfera convidativa como anteparo aos momentos mais tensos da jornada do músico. Momentos relatados com sensatez e coragem, como a apresentação em Woodstock, na qual quase toda a Santana Blues Band estava sob efeito de drogas. Depois de se envolver com um grupo espiritualista, o guitarrista largou os entorpecentes e seguiu uma trilha de luz, segundo suas palavras. E luz é um conceito que acompanha as escolhas técnicas do documentário. Cada cenário em que Santana conta sua história tem auras e luminosidades diferentes, mas sempre visíveis.
Outro destaque de “Carlos” é o uso abundante de arquivos fotográficos íntimos, organizados com equilíbrio para contar principalmente os primeiros anos do músico no México, onde começou seu interesse pela carreira musical ainda na infância. Isso reafirma a tentativa da produção em associar o artista ao apreço pela família e como ele norteou sua trajetória profissional. Mesmo que imagens do guitarrista sem camisa em seu ambiente mais privativo não façam muito sentido narrativo, a ideia é honesta ao retratar sua obsessão pelo acolhimento. Afinal, a música de Carlos Santana sempre foi um grande abraço na diversidade cultural do planeta sob os signos de sua guitarra blueseira. Então, conhecer o homem sob sua arte é uma decisão feliz dos produtores. Um dos pontos mais dramáticos é a revelação de que, quando criança, Carlos Santana sofreu abuso sexual. Essa experiência traumatizante tem importância no filme porque as dolorosas memórias também determinaram a busca do artista por uma transcendência por meio da música e da espiritualidade. Ele procurou cura e encontrou na guitarra e na elevação evolutiva de sua alma.
“Carlos” é um bom documentário, que funciona como um grande retrospecto pessoal e subjetivo de um dos maiores guitarristas da história do rock e um dos músicos mais significativos da América Latina. Por meio de muita oralidade ilustrada com imagens fotográficas e arquivos audiovisuais, o filme mostra um Carlos Santana radiografando as passagens mais importantes de sua carreira, com uma lupa afetiva gostosa de acompanhar. Além disso, os generosos momentos musicais complementam a narrativa sem servir de muleta, já que há muitas informações bem distribuídas. O recorte também foi feliz. Afinal, se o Festival de Woodstock projetou Carlos Santana ao mainstream da indústria musical, o álbum “Supernatural” inaugurou uma nova era de sucesso e resgate ícone. Tudo sob muita luz emanada por sua guitarra tão sentimental como coração latino e alma blueseira. Mesmo apostando no simples e no autocontemplativo, o documentário entrega o que propõe: apresentar o íntimo de um sujeito iluminado chamado Carlos Santana em toda sua completude.
Nota: 8.5
“Carlos” está disponível na Amazon Prime Video.
Confira o trailer do documentário “Carlos”:
Ouça o episódio analisando “Carlos”, entre outras atrações, no Spotify da Educativa MS:
Foto em destaque: Roberto Finizio.
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