O Assunto é Cinema é um podcast produzido e apresentado pelos jornalistas Clayton Salles e Daniel Rockenbach. O programa fica disponível todas as quintas, às 20h (horário de MS), no Spotify da Educativa MS.
NOTA E CRÍTICA – Daniel Rockenbach
O Assunto é Cinema revisita “Mortal Kombat”, filme dirigido por Paul W. S. Anderson, lançado em 1995. A trama acompanha Liu Kang, Johnny Cage e Sonya Blade, lutadores recrutados por Raiden, Deus do Trovão e guardião do reino terrestre, para combater em um torneio de artes marciais em outworld. Se os lutadores terrenos vencerem, a Terra estará salva da invasão. Se perderem, o destino do planeta estará nas mãos dos exércitos de outworld. Essa é a trama.
“Mortal Kombat” foi um sucesso imediato nos arcades em 1992. O jogo trazia atores digitalizados em cenários “realistas” em um violento torneio de artes marciais. Os jogos de luta estavam dominando o mercado depois do sucesso de “Street Fighter 2” e seus inúmeros derivados. O sucesso dos japoneses da Capcom fez a norte-americana Midway querer fazer um jogo de luta para conquistar o público dos arcades e o resultado foi “Mortal Kombat”.
Originalmente o jogo adaptaria “O Grande Dragão Branco”, filme de 1988 com Jean-Claude Van Damme, mas como os direitos do filme e uma participação do astro belga custavam caro demais para a produção, o estúdio optou por criar algo novo. Inspirados pela tecnologia de digitalização de atores já vista no jogo de luta “Pit-Fighter” lançado em 1990 pela Atari, Ed Boon e sua equipe desenvolveram o conceito de um torneio de artes marciais com referências de vários de seus filmes favoritos. A Midway já testava o uso de imagens digitalizadas em jogos desde 1988 com “Narc”, algo que foi posto em prática no projeto, muito mais complexo que os jogos anteriores.
Bruce Lee inspirou Liu Kang, Van Damme inspirou Johnny Cage, Cynthia Rothrock inspirou Sonya Blade e assim por diante. Com elementos de “Operação Dragão” de 1973 e “Os Aventureiros do Bairro Proibido” de 1986, além dos muitos filmes de ninja da década de oitenta e um ou outro elemento sci-fi, Ed Boon e John Tobias criaram “Mortal Kombat”. O diferencial do jogo com a concorrência? O sangue e a violência dos fatalities, as finalizações em que um oponente executa o outro após o fim da luta. Isso e os muitos mistérios a serem descobertos pelos jogadores.
Todo este contexto é importante para explicar o sucesso da adaptação de Paul W. S. Anderson para as telas. O roteiro de Kevin Droney só precisava pescar os elementos principais do fiapo narrativo dos jogos e criar uma espécie de “Operação Dragão” com elementos sobrenaturais e mais lutadores. A produção entrega tudo o que os fãs dos jogos queriam ver: os ninjas Scorpion, Sub Zero e Reptile, o ciborgue Kano, o monstruoso Goro com seus quatro braços animatrônicos e os exóticos cenários do outworld. Ainda assim, a New Line definiu um limite: a classificação etária teria de ser PG-13, para maiores de 13 anos, o que impediria o sangue e os fatalities em cena.
Mesmo com as restrições, o público da franquia saiu feliz dos cinemas ao ver os personagens representados e até mesmo cenários como “The Pit” devidamente caracterizados. É justamente esse tipo de atenção que faltou na adaptação de “Super Mario Bros” em 1993 ou “Street Fighter” em 1994, o que resultou em fracassos de público e crítica. “Mortal Kombat” tem um roteiro regular, que fica confuso próximo ao desfecho quando Shang Tsung sequestra Sonya Blade para trapacear e se declarar campeão de um torneio em que ele tinha total vantagem sobre seus adversários. Isso pouco importa perto do resultado final: um fanservice bem executado, afinal de contas, não estamos diante de um épico cinematográfico e sim de um produto de seu tempo.
O casting da adaptação é outro acerto: Robin Shou entrega um Liu Kang sem disfarçar a inspiração em Bruce Lee, Linden Ashby abraça a canastrice de Johnny Cage com naturalidade e Bridgette Wilson entrega uma Sonya Blade que nada deve à Cynthia Rothrock e outras atrizes de ação. Cary-Hiroyuki Tagawa incorpora Shang Tsung com toda a aura vilanesca do personagem. O elenco principal se diferencia por um simples motivo: todos tinham habilidades com artes marciais, além de terem experiência como atores. Grande parte do fracasso de “Street Fighter” no ano anterior vem do fato de nenhum dos atores além de Van Damme ter grande experiência com lutas. Isso e a falta de um coreógrafo, tarefa executada por Robin Shou em “Mortal Kombat”.
Ainda que o filme tenha forçado elementos como a escalação do ocidental Christopher Lambert como o asiático Raiden apenas para ter um nome famoso no elenco, “Mortal Kombat” agrada justamente por entregar o esperado. O longa gastou boa parte de seu orçamento filmando em locação na Tailândia em templos exóticos, um capricho exigido pelo diretor que rendeu belas tomadas. A trilha sonora que traz uma fusão de música eletrônica e remixes de temas dos jogos é outro ponto forte, principalmente o hit “Techno Syndrome”. “Mortal Kombat” é divertido justamente por ser cafona e não se levar a sério, algo que a adaptação de 1995 fez muito bem, não é um clássico cult, mas diverte. A única ressalva: ignore totalmente a sequência “Mortal Kombat: A Aniquilação”, lançada em 1997, facilmente um dos piores filmes da década de noventa.
“Mortal Kombat” está disponível no serviço de streaming HBO Max.
Nota: 8
Confira o trailer do filme “Mortal Kombat” lançado em 1995:
Ouça o episódio revisitando “Mortal Kombat”, entre outras atrações, direto do Spotify da Educativa MS:
Foto: Divulgação.
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