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O Assunto é Cinema – Revisitando Deus e o Diabo na Terra do Sol

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O Assunto é Cinema é um podcast produzido e apresentado pelos jornalistas Clayton Salles e Daniel Rockenbach. O programa fica disponível todas as quintas, às 20h (horário de MS), no Spotify da Educativa MS.

 

NOTA E CRÍTICA – Clayton Sales

 

A dicotomia entre o bem e o mal norteia o imaginário popular desde remotos tempos. Porém, entre a essência da bondade e o teor da maldade existem infinitas nuances que representam a própria condição humana. Quando o cenário é o árido sertão nordestino de muitas décadas atrás, essa dicotomia é a armadilha que engole o homem, especialmente o mais pobre. Nesse labirinto de desolação, se desenvolve a história do vaqueiro Manoel que, junto com a esposa Rosa, foge de jagunços após matar o coronel Moraes, que lhe roubou o pouco gado que possuía. Na fuga, ele encontra apoio em uma seita religiosa, mas um pistoleiro é contratado para eliminar o grupo: Antônio das Mortes, que mata os membros da seita. Manoel e Rosa conseguem escapar e buscam amparo, desta vez, no bando de cangaceiros liderado por Corisco e Dadá, também sob a mira impiedosa de Antônio. Todas as vítimas do matador tinham em comum a determinação de lutar contra o sistema opressivo que dominava o sertão.

A direção foi de Glauber Rocha e o roteiro foi escrito por ele e Walter Lima Jr., que aproveitaram o clima obscuro do Brasil para construir uma obra altamente desafiadora da época. No entanto, o olhar é para as entranhas esquecidas do país. Eram dias de aguda instabilidade política em uma nação mergulhada nas sequelas da guerra fria, que tornavam as grandes cidades centros nervosos de uma intensa polarização política e social. Todavia, enquanto as coisas ferviam nos principais centros urbanos, capturando a atenção da sociedade, nos rincões ocultos do Nordeste, um enraizado sistema de dominação sugava a escassa vida do sertanejo para o enriquecimento de coronéis latifundiários. Nesse ambiente violento e abandonado, se desenrola um dos dramas humanos mais pungentes do cinema nacional. Glauber Rocha mergulhou no âmago dos sentimentos de cada personagem para criar uma fábula que dialoga com a própria história do Brasil. Os simbolismos que usa para isso são exuberantes e principalmente certeiros. Um exemplo é Sebastião, conhecido como “Santo”, líder da seita onde Manoel e Rosa depositam suas esperanças. Uma metáfora da fé como único recurso do miserável e destruída pelo braço armado do coronelismo, representado por Antônio das Mortes.

“Deus e o diabo na Terra do Sol” foi realizado em preto e branco, e isso revela muito sobre as escolhas técnicas de Glauber Rocha. Apostando numa equilibrada mescla entre a ênfase nas expressões sombrias dos personagens, fortalecida por diálogos carregados de poesia cáustica sobre as condições de vida, quase uma espécie de cordel byroniano, e planos abertos para acentuar a imensidão do abandono dos protagonistas, o diretor criou uma dinâmica de movimentos de câmera que reverencia os faroestes italianos, temperando com elementos simbólicos do cangaço. Porém, o filme foge de heroísmos óbvios e vilanias simplórias. Em vez disso, aprofunda nas complexidades de todo mundo, mostrando que Deus e o diabo se misturam o tempo todo no coração das pessoas. Então, o potencial do preto e branco reveste essa construção narrativa e imagética de uma dramaticidade inescapável. Isso causa uma provocante vertigem, já que a estética nos convida ao conforto da dicotomia, mas a trama nos atira no redemoinho da complexidade.

Como de costume no cinema de Glauber Rocha, as atuações têm forte componente teatral, especialmente porque muitos enquadramentos são estáticos o bastante para enfatizar as expressões de atores e atrizes, e o texto é carregado de dramaturgia literária. Vale mencionar Geraldo Del Rey com seu Manoel ingênuo, corajoso e inconsequente, Otton Bastos com seu Corisco ambíguo, alegorizando as contradições do cangaço, e Maurício do Valle com seu Antônio das Mortes implacável, numa representação perfeita da violência que o poder político e a elite agrária utilizam para manter o sistema sob seu controle. Ao mesmo tempo, o matador de cangaceiro, como Antônio era conhecido, vai mostrando sinais de abalo em suas convicções, que foram explorados mais tarde em “O Dragão da Maldade contra o Santo Guerreiro” (1969). A trilha sonora de Sérgio Ricardo é um exemplo de irretocável harmonia com a atmosfera do filme e com cada cena, especialmente no clímax, quando ocorre o embate final entre Antônio e Corisco. O violão em acordes concisos e o canto de acentuada melancolia com letras cortantes são suficientes para completar a incrível paisagem audiovisual do filme.

“Deus e o diabo na Terra do Sol” é uma obra-prima do cinema brasileiro e um dos filmes mais espetaculares do mundo. Não à toa, concorreu à Palma de Ouro em Cannes e figura em segundo na lista de 100 melhores filmes nacionais de todos os tempos, organizada pela Associação Brasileira de Críticos de Cinema. Um dos principais representantes do movimento do Cinema Novo, é ainda hoje a manifestação viva e orgânica das assimetrias do poder e das penúrias do povo que sofre com sistemas moldados para servir aos interesses dos mais ricos. Glauber Rocha denuncia tudo isso sem cair no maniqueísmo que o título parece sugerir. Deus e o diabo, o divino e o satânico, o bem e o mal, o certo e o errado, igualam-se sob o calor do astro que deveria significar luz. E ele é luz, vida, pujança. Para os ricos. E morte, dor, sofrimento para a massa empobrecida. Por isso, essa realidade cruel é capaz de transformar o bom homem trabalhador em um desamparado que busca na fé cega e na violência desesperada seus únicos confortos. “Mais fortes são os poderes do povo!” foi a frase berrada por Corisco antes de tombar com os balaços desferidos por Antônio das Mortes. Um signo da disposição por resistência popular que ultrapassa até mesmo a morte.

Nota: 1.000.

Confira o trailer da restauração em 4K “Deus e o Diabo na Terra do Sol”:

 

Ouça o episódio revisitando “Deus e o Diabo na Terra do Sol”, entre outras atrações, no Spotify da Educativa MS:

 

Foto em destaque: Divulgação.

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