O Assunto é Cinema é um podcast produzido e apresentado pelos jornalistas Clayton Salles e Daniel Rockenbach. O programa fica disponível todas as quintas, às 20h (horário de MS), no Spotify da Educativa MS.
NOTA E CRÍTICA – Daniel Rockenbach
O Assunto é Cinema analisa “John Carpenter’s Toxic Commando”, jogo desenvolvido pela Saber Interactive. Em um futuro próximo, um experimento que pretende extrair energia do núcleo da Terra acaba acidentalmente liberando o “Deus do Lodo”, uma entidade que corrompe a superfície da área onde acontece o experimento e transforma a maioria dos humanos próximos em zumbis. O cientista responsável pela crise decide encarar o monstro contratando um grupo de mercenários para executar seu plano para acabar de uma vez por todas com o “Deus do Lodo”.
Em “John Carpenter’s Toxic Commando”, quatro jogadores se reúnem para cumprir missões em um vasto mapa que cobre toda a área corrompida pela entidade. O jogo pode ser jogado individualmente com um jogador local e até três bots controlados pela CPU ou online com outros jogadores. Durante as missões, um dos jogadores controla um veículo pelo mapa enquanto cabe aos outros defender o transporte que desloca o grupo pelo território onde as missões transcorrem. Fora do veículo, o caos se instala contra toda uma sorte de criaturas e zumbis.
A mecânica lembra de imediato jogos cooperativos clássicos como os da série “Left 4 Dead”, onde um grupo de jogadores se reúne para enfrentar hordas de zumbis enquanto atravessa um determinado mapa. De lá para cá, jogos como “Back 4 Blood” e outros tantos tentam repetir o grande sucesso da Valve, sem grande destaque, o que é uma pena para os fãs do gênero. Jogos co-op baseados em franquias cinematográficas viraram lugar comum rendendo até bons resultados como “Aliens: Fireteam Elite” e outros menos conhecidos, mas com a mesma fórmula de um grupo de jogadores enfrentando uma horda de inimigos.
“John Carpenter’s Toxic Commando” pretende ser algo novo em um cenário repleto de variações de jogos online, indo dos sucessos de jogos de tiro de extração como “Arc Raiders” e “Marathon” ou multiplayers assimétricos como “Predator: Hunting Grounds”, “Dead by Daylight” e outros tantos que colocam jogadores em um time contra outro jogador no controle de uma criatura muito mais poderosa. O fato de ser um jogo cooperativo em um cenário repleto de zumbis com o deslocamento de grandes distâncias em diferentes tipos de veículos, infelizmente não empolga como o esperado pelo estúdio e pela distribuidora Focus Entertainment.
O gameplay até diverte em um primeiro momento, principalmente quando o jogador pode explorar as classes de personagens e seus poderes específicos oriundos do contato com o Lodo da entidade, mas mesmo isso vai se repetindo até se tornar algo batido. O que poderia elevar o nível da experiência é justamente o calcanhar de Aquiles do jogo, a trama elaborada pelo mestre do horror, John Carpenter. O veterano cineasta já colaborou com jogos antes, como na franquia “F.E.A.R.” ou na sequência de seu clássico, “The Thing”, mas dessa vez, parece que ele fez como disse em uma convenção com fãs recentemente: “eu estendi minha mão, eles me deram o cheque”. Nem o talento e sucesso da Saber Interactive com o coop multiplayer de “Warhammer 40k: Space Marine 2” e suas impressionantes hordas de inimigos fizeram a diferença no projeto.
Por mais que a trama tenha cara e estilo de filme B, “John Carpenter’s Toxic Commando” apela para clichês que nem o próprio Carpenter usou em seus filmes, os personagens até lembram os protagonistas dos filmes do diretor, mas é só começar a ação que logo fica claro que nenhum deles carrega o carisma das criações de Carpenter. Ainda que os diálogos sejam rasos, falta aos protagonistas uma certa identidade que ao menos poderia salvar os fãs do lendário diretor da decepção. O uso de uma entidade genérica com um ar lovecraftiano só deixa tudo ainda mais mediano, é como se o “Deus do Lodo” fosse uma desculpa para a ameaça do jogo.
Os produtores poderiam ter optado por licenciar os personagens de “O Príncipe das Sombras”, clássico injustiçado de Carpenter que tem uma ameaça cósmica mais interessante, além de protagonistas com mais personalidade. Seria mais divertido enfrentar uma ameaça paradoxal que vem de um futuro distópico, transformando pessoas em monstros, que o “Deus do Lodo” apresentado no jogo. O mal apresentado no filme carrega muito mais significado que o da trama do jogo e isso tende a decepcionar todos que esperavam algo mais profundo pelo envolvimento de Carpenter, um cineasta que reconhecidamente acompanha e curte a indústria dos jogos.
“John Carpenter’s Toxic Commando” não é de todo um desastre, é um jogo que consegue entreter por umas boas horas, mas não vai além disso e não parece que vai trazer grandes novidades com novos mapas e expansões futuras. Jogos baseados em franquias estabelecidas costumam visar o faturamento em cima dos fãs, algo que funciona para os estúdios, mas nem sempre com o público alvo, o que é, em boa parte, o caso aqui. “Aliens: Fireteam Elite” é um exemplo de jogo do tipo que, por mais que fosse um produto visando capitalizar em cima dos fãs, ao menos conseguiu agradar bastante a audiência fiel da franquia, entregando um jogo levemente acima da média. Ao menos fica a trilha sonora inspirada de Carpenter, um dos grandes nomes do synthwave contemporâneo, mas que já largou o cinema faz algum tempo.
“John Carpenter’s Toxic Commando” está disponível para PCs, Playstation 5 e XBOX Series S e X.
Nota 6.
Confira o trailer do jogo “John Carpenter’s Toxic Commando”:
Ouça o episódio analisando “John Carpenter’s Toxic Commando”, entre outras atrações, direto do Spotify da Educativa MS:
Foto: Divulgação.
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