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O Assunto é Cinema – Analisando a animação Arco

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Assunto é Cinema é um podcast produzido e apresentado pelos jornalistas Clayton Salles e Daniel Rockenbach. O programa fica disponível todas as quintas, às 20h (horário de MS), no Spotify da Educativa MS.

 

NOTA E CRÍTICA – Daniel Rockenbach

O Assunto é Cinema analisa a animação “Arco”, filme escrito e dirigido por Ugo Bienvenu. A trama acompanha Arco, jovem de um futuro distante onde as pessoas moram em meio às nuvens e viajam ao passado para resgatar artefatos e informações. As pessoas literalmente voam em feixes de luz até o passado, deixando um rastro que lembra muito um arco-íris. Arco deseja voar como os pais e a irmã, mas ele não pode, já que ainda não completou 12 anos de idade.

Íris é uma menina que vive em 2075, um futuro onde catástrofes naturais ocorrem com frequência e bolhas artificiais são geradas em torno das casas para conter o impacto. Ela vive com o irmão, recém nascido, e o robô doméstico Mikki que cuida de ambos enquanto os pais trabalham em outra cidade. Íris é uma menina curiosa e inquieta que se sente deslocada em seu mundo. Quando Arco e Íris fogem de suas rotinas, o encontro entre os dois acontece, meio que por acidente, desencadeando uma série de eventos que mudarão a vida dos dois.

“Arco” de Ugo Bienvenu é uma animação que fala de dois futuros: um próximo, que retrata consequências inevitáveis de questões atuais, e um distante, onde o impacto das ações humanas na natureza fez com que todos tivessem que se adaptar a uma realidade mais idílica, em estruturas em meio às nuvens. A beleza do filme está na visão ingênua das crianças que protagonizam a trama. Arco e Íris parecem personagens saídos de um filme escrito por Hayao Miyazaki, Íris inclusive lembrando muito a protagonista de “Nausicaä no Vale do Vento” em certos momentos, principalmente quando ela interage com a natureza.

O amadurecer prematuro de Arco, ao se jogar no passado em um vôo inconsequente, permite o encontro entre ele e Íris, concretizando o choque entre mundos tão distintos. Enquanto a realidade de Íris é extremamente dependente da tecnologia, o mundo de Arco é simples e bucólico, ainda que com algum conforto tecnológico. Arco surge na trama quase como um elfo, conversando com os pássaros e provocando em Íris uma obstinação em ajudar o garoto a voltar para a casa, no futuro. Ambos acabam se complementando em seus temas com naturalidade.

O primeiro longa-metragem de Ugo Bienvenu surge como uma afirmação de seu talento criativo. Ele já havia se destacado com o quadrinho “Preferência do Sistema”, trama que ele roteirizou e ilustrou no mesmo universo de “Arco”. Bienvenu explora diferentes vertentes da ficção científica para discutir grandes temas contemporâneos sobre diferentes pontos de vista. Vale destacar que “Preferência do Sistema” é uma trama para adultos, diferente de “Arco”, ambas produções excepcionais em seus meios. A forma com que o roteiro de Bienvenu flui nos dois projetos é natural, prova do talento do jovem cineasta em contar histórias.

A beleza da animação de “Arco” é fruto do talento dos artistas do estúdio Remembers, coordenado por Bienvenu e Félix de Givry, que ainda foi co-roteirista do longa. A animação tradicional remete aos clássicos do gênero que encantaram tantas gerações no passado, repetindo feitos que hoje são mais esperados da animação japonesa que dos estúdios hollywoodianos. Cada acetato parece vivo de tantos detalhes ilustrados, principalmente nas cenas com a natureza ao fundo. A cada célula animada em fundos assim se podem ver insetos se movendo, gotas de água caindo de folhas, detalhes que enriquecem a qualidade final do corte visto em cena. Ainda que não seja uma animação tão dinâmica e fluida como as de um estúdio Ghibli, o empenho impressiona.

O elenco de vozes francês e o norte-americano entregam uma dublagem competente e o mesmo pode ser dito da dublagem brasileira. A música de Arnaud Toulon traz temas que evocam emoções que vão da contemplação do bucólico ao crescendo empolgante das cenas de vôo de Arco e dos habitantes do futuro distante. O orçamento da produção está mais voltado para os aspectos técnicos de animação, som e música que necessariamente com um elenco de estrelas para dublagem, ainda que conte com nomes como Mark Ruffalo, Natalie Portman e Will Ferrell na versão norte-americana, além do rapper Flea.

A ficção científica ganha muito com os trabalhos de Ugo Bienvenu que discute grandes temas contemporâneos de forma original e sem rodeios. Seja na fábula de amadurecimento de Arco e Íris ou na discussão em torno da memória humana em “Preferência do Sistema”, Bienvenu traz um novo fôlego para o gênero com suas histórias. Agora é esperar os projetos futuros do jovem talento francês, mais um nome para se acompanhar de perto no cinema de animação. “Arco” está disponível no serviço de streaming Mubi. O quadrinho “Preferência do Sistema” foi publicado no Brasil pela editora Comix Zone.

Nota 10.

Confira o trailer de “Arco”:

 

Ouça o episódio analisando “Arco”, entre outras atrações, direto do Spotify da Educativa MS:

 

Foto: Divulgação.

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