O Assunto é Cinema é um podcast produzido e apresentado pelos jornalistas Clayton Salles e Daniel Rockenbach. O programa fica disponível todas as quintas, às 20h (horário de MS), no Spotify da Educativa MS.
NOTA E CRÍTICA – Clayton Sales
Pode até parecer que Cratará é um universo distópico, apartado da realidade, distante do mundo concreto. Mas o que é a metáfora senão a arte produzindo significados que conectam nossa percepção ao que está camuflado sob camadas de alienação? Especialmente, se o subtexto é sobre política e poder. Mesmo apelando a elementos do cinema de ação hollywoodiano, que tem seus méritos, a 2ª temporada da série brasileira “Cangaço Novo” entrega simbolismos ainda mais inflamáveis sobre relações de poder no Brasil profundo. Disponível na Prime Vídeo, na nova fase, a família Vaqueiro está fragilizada pelas perdas violentas expostas na temporada anterior, mas esperançosa graças à vitória do prefeito Paulino Leite, cuja campanha foi financiada com dinheiro dos assaltos a bancos que o clã cometeu. Porém, a partir de um reordenamento de forças e fortalecimento de conflitos, as coisas mudam, a tensão aumenta e a situação em Cratará vira uma bomba-relógio. Bomba que explode e deixa cicatrizes profundas em vencedores e derrotados.
A temporada aproveita características da ótima primeira fase e as reforça com novos elementos trabalhados nas sutilezas psicológicas. Pode não aparentar, já que todos os sete episódios são carregados de torrencial adrenalina, mas muitas cenas são verdadeiros tratados sobre traumas de passados dolorosos. Cada capítulo abre com tomadas em preto e branco da infância de Ubaldo, Dinorah e Dilvânia na época da morte do pai Amaro Vaqueiro, lendário matador da região. A ideia é situar essas voltas no tempo nos acontecimentos do momento atual. Isso é muito bem desenvolvido graças a roteiros costurados com inteligente simplicidade, sem rodeios. Tudo está ligado e deságua nos confrontos de maior e menor intensidade. Por isso, a saga dos Vaqueiro é um mosaico de rupturas violentas em um cenário que já é, por si só, a síntese da desolação: um sertão nordestino inóspito, abandonado por um Estado que se apresenta apenas na repressão policial aos mais pobres e na sua aliança com a elite agrária do lugar. É contra esse sistema historicamente sólido que os Vaqueiro tentam lutar depois de um breve instante acreditando nele e o alimentando ao ajudar um falso progressista a conquistar a prefeitura.
Em comparação com a 1ª temporada, “Cangaço Novo” é ainda mais crua, mortífera e seca, e ao mesmo tempo, sofisticada. A impressão é que eventuais desvios cometidos na direção da fase anterior foram aprumados. Um exemplo é a utilização mais exigente do excelente elenco, em especial, do trio protagonista. De homem em conflito com suas raízes movido pela necessidade de salvar o pai adotivo, o Ubaldo de Allan Souza Lima assume de vez o legado do mítico pai biológico e ocupa a liderança do bando. De jovem vulnerável pela condição de pessoa muda, a Dilvânia de Thainá Duarte se revela uma conselheira astuta mesmo em seu silêncio. E da mulher impulsiva como tempestade, a Dinorah de Alice Carvalho se refina como uma estrategista perspicaz sem perder a essência visceral. O trabalho com os antagonistas também merece destaque, especialmente nas interações entre o prefeito Paulino e o antecessor Gastão Maleiro, cuja performance de Bruno Bellarmino é uma das melhores da série. Sem falar no conjunto de coadjuvantes e figurantes muito bem coordenados. Um espetáculo humano sublime.
Tecnicamente, a temporada aprimora a estrutura que deu certo, principalmente por um motivo crucial: a produção pegou o melhor dos clichês do cinema de ação dos EUA e enxertou ainda mais brasilidade nas cenas. Em grande parte, por conta do ótimo roteiro, repleto de diálogos coerentes e densos, que dão sentido inclusive às tomadas de ação e fornecem doses de identidade brasileira. O jogo de contrastes permanece como na 1ª temporada, bem como a inventividade da trilha sonora temperada com musicalidade nordestina moderna. O final do último episódio pode levantar uma discussão sobre seu caráter exageradamente messiânico, mas tem a virtude de preparar nossas expectativas para uma provável sequência. A relevância de Dilvânia deve ser ainda maior na nova fase por conta das circunstâncias que finalizam a história na atual. A fotografia irretocável que, mais uma vez, valoriza as humanidades em todas suas contradições, com corpos em constante provação, além de movimentos de câmera alucinantes e edição impecável que não dão respiro, completam a ótima experiência da série.
A 2ª temporada de “Cangaço Novo” é um espetáculo exuberante de ação, drama e suspense que extrai recursos do cinema de ação internacional para compor uma obra ainda mais repleta de teor político. Afinal, o cerne da narrativa é a disputa fundiária, desta vez, focada no fornecimento de água para Cratará, monopolizado por uma empresa privada mancomunada com a poderosa família Maleiro. Uma tremenda metáfora da apropriação capitalista dos recursos naturais, com a colaboração do poder público que deveria zelar pelo povo mais vulnerável. Em vez disso, o Estado representado pela prefeitura pusilânime que se corrompe e por uma oligarquia familiar criminosa usa seu aparato contra os pobres. Mas há a resistência liderada pelos Vaqueiro, alusão provocativa à violência revolucionária e ao banditismo social. Então, retomamos a pergunta inicial: o que é a metáfora senão a arte produzindo significados que conectam nossa percepção ao que está camuflado sob camadas de alienação?
Nota: 9.5
Confira o trailer da nova temporada de “Cangaço Novo”:
Ouça o episódio analisando “Cangaço Novo”, entre outras atrações, no Spotify da Educativa MS:
Foto em destaque: Divulgação.
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